1 de jun. de 2010

Enchente voluntária (Ambiente adequado 2)

Karmem não se incomodava de prosseguir fora da trilha, pelo meio do rio.

- A água está na nossa canela. Que refrescante! O rio bate no nosso pezinho e ouvimos um chuá, chuá. Quer som mais relaxante que esse?

Logo o chuá, chuá havia se tornado um ensurdecedor tchuááááááááá.

O que significava, claro, que o nível fluvial já alcançava a cintura.

- Karmem, estou ficando com os ovos gelados.

- Você trouxe ovo também na mochila?

- Esse tipo de ovo, não, os meus 'ovos'!

- Hihihi.

Para tornar tudo mais fácil, a força das águas ficava cada vez mais intensa conforme avançávamos. Íamos contra o sentido da água, para chegar à sua fonte, pisando nas pedras que, além do limo, eram lixadas constantemente pelo rio. Uma trilha, assim, super fácil, já que decidimos abandonar o caminho por entre as
árvores.

- Karmem, não sei se consigo andar mais...

- Como você é mole. Faz quanto tempo que estamos andando, uns quarenta minutos?

- Deixa eu olhar no relógio... Acabamos de completar treze horas.

- Como o tempo passa quando estamos nos divertindo à beça, não é mesmo?

A maior diversão era ver que, pelo menos, se eu estava "aguarrado" (soterrado por água) até o peito, Karmem, 20 centímetros mais baixa, estava submersa do queixo para baixo. Pensei que isso fosse o suficiente para que ela desistisse, mas Karmem não era dessas. Chegaríamos à cachoeira, nem que tivéssemos que usar bambus para respirar!

E assim foi. Chegamos sãos (?) e salvos (?) à queda d'água.

- Não é a melhor visão do mundo?

- Não sei.

- Como, não sabe?

- São onze horas da noite, não estou enxergando nada.

- Quanto negativismo. Só você para ignorar que está no mais perfeito paraíso.

- Olha, só estou preocupado em imaginar como é que vamos voltar daqui...

- Cadê a corda?

- Que corda?

- A que eu coloquei na mochila.

- Aquele pedaço de elástico?

- Esse mesmo!

- Eu achei que fosse só para amarrar a mochila porque o zíper emperrou e não fecha mais.

- E a sua criatividade inventorística, onde vai parar nessas horas?

Sem entender onde ela queria chegar, entreguei o elástico.

- Pronto, agora você sobe lá, prende uma das pontas e me joga a outra. Rapel é tão divertido!

- Subo onde?

- Onde mais? Na cachoeira!

- E você quer que eu suba como? Tem elevador?

- Quanto corpo mole. Sobe ali pelas pedras, vai!

E lá ia eu, subindo pelas pedras dentro da cachoeira. De onde vinham as forças, não em perguntem. Só sei que em breve elas me abandonaram.

- Kaaaaarmem!!!!!!!

- Ai, não acredito que você não conseguiu se segurar!

Pelo menos, a viagem de volta levou muito menos tempo. Arrastado pelo rio, voltei ao ponto de partida em quarenta minutos, exatamente o tempo que Karmem sentira passar na viagem de ida. Tempo suficiente, também, para que Karmem aparecesse do meu lado. De carro.

- E não é que você tinha razão?

- Gasp, puff, puff, ãh?

- Instalaram um elevador mecânico na cachoeira, para facilitar o acesso dos turistas. FIcava do outro lado, eu só tive que dar a volta para encontrá-lo e subir tudo.

O pessoal do hotel fazia viagens gratuitas até ali de carro. Quando Karmem contou que eu tinha sido arrastado, o guia de turismo de plantão foi com ela me socorrer. Só não entendiam porque alguns turistas insistiam em aventurar-se pelas águas perigosas, lamacentas e a correnteza forte para chegar a um lugar que se podia alcançar em 15 minutos de carro pela estrada.

25 de fev. de 2010

Abominável homem da espuma

Karmem sempre fazia com que eu me sentisse bem em relação à minha aparência:

- Seu cabelo é ridículo.

- Quanto?

- Muito. Vai lá passar esse gel agora.

- Mas eu gosto dele assim, do jeito que est...

- A-G-O-R-A!

Uma semana de namoro e era assim que trocávamos confidências amorosas no banquinho da faculdade.

- Usa ali a água do bebedouro, para baixar um pouco essa juba.

- Não é melhor eu fazer isso na pia do banheiro?

- Não! Eu quero ter certeza de que você vai fazer o processo do jeito certo, e que não vai gastar todo o meu gel.

Karmem sempre confiou em mim.

- Deixa eu mesma passar.

- Ai, não puxa!

- É que está muito alto. Você não podia ter a cabeça mais pra baixo?

- Se você continuar puxando, ela vai ficar...

- Espera aí, tem algo estranho.

- Fora o fato de você estar molhando o meu cabelo no meio do campus?

- Que frasco é esse?

- O que você me deu.

- Xi, me confundi!

- Confundiu o quê?

- Isso não é gel, é sabonete líquido.

- E isso escorrendo nas minhas costas é o quê?

- Faça as contas. Sabonete + água é igual a...?

- Hummmm... Espuma?

Karmem sabia como lidar com as mais variadas situações e sempre nos livrar dela. Geralmente com a mesma solução: rir enquanto eu corria para dar um jeito em tudo.

- Tá parecendo o abominável homem das neves agora!

- E você vai ficar só rindo?

- Não, vou fotografar para todo mundo ver depois. Essa eu não posso perder.

- Posso lavar no banheiro?

- Ainda não.

- E por quê?

- Por que nenhum amigo meu já passou aqui para ver. Ah, péra! Professor, olha só o garoto que eu namoro! Pode uma coisa dessas?

- Mas o que está acontecendo aqui?

Fiz o que qualquer pessoa normal faria. Corri gritando:

- Foi essa louca que me encheu de sabão na cabeça!

Via-se uma auréola na cabeça de Karmem.

- O senhor acredita? E ainda quer colocar a culpa em mim! Esse menino sempre tenta denegrir a minha imagem...

Mas tudo compensava. As risadas de Karmem ainda ecoariam por muito tempo em meus ouvidos.

16 de nov. de 2009

Censurado - Aracy e a ameaça do vírus

Caros leitores,

Como alguns de vocês estavam sabendo, eu iria colaborar com uma revista focada no público jovem. 'Iria' mesmo e não vou mais e explico o porquê.

Texto pronto, diagramado no 'boneco' (espécie de modelo pré-impressão feito para ver como vai ficar a revista final), a idealizadora da publicação mostrou para um anunciante que considerou o tema pesado para o público-alvo.

Decerto este anunciante acredita que ignorando os problemas do mundo eles passam automaticamente a não mais existir. Na minha opinião é justamente o contrário: quanto mais informação se tiver sobre aquele assunto, mais fácil ficará combatê-lo. Mas quem sou eu?

Desconheço qual seja a marca ou mesmo o produto desta empresa, mas não me surpreenderia nada saber que a própria deve investir milhares de reais em marketing social - tudo em nome de construir uma imagem politicamente correta e nada mais.

Triste saber que ainda existe, sim, muita censura no mundo. Mais triste ainda saber que esse veto não aconteceu por motivos políticos, religiosos ou morais e sim para não macular o lindo mundo perfeito que a publicidade quer nos fazer acreditar que passaremos a habitar ao comprar seus produtos. Como se adquirir uma margarina, um sapato, um carro ou um par de óculos escuros da moda nos tornasse imortais e imunes a quaisquer mazelas.

Como este blog tem compromisso única e exclusivamente com os seus leitores (até porque não temos patrocínio), segue o texto abaixo. Espero que gostem e, acima de tudo, que entendam a mensagem.

Aracy e a ameaça do vírus

Aracy chegou já em prantos.

- Ai, Cris! Estou com um problema horrível.

- O que foi, gata? Você estava tão aflita ao telefone que eu mal tive tempo de dispensar o Charles para vir te ver. E que história é essa dele não poder vir junto?

- Vou ser direta: estou com medo de estar com HIV.

- Aracy, o que a senhora andou fazendo? Ou melhor, o que a senhora ficou parada fazendo, com quem e em que lugar?

- Lembra daquela viagem que eu fiz no final do ano passado?

- Sim, aquela que você acabou ficando com o amigo da irmã do vizinho da sua prima?

- Irmão da amiga da vizinha do meu primo.

- Isso.

- Descobrimos que o rapaz está com o vírus.

- Ai, ai, ai. Mas foi só uma ficada, não foi?

- Sim, foi.

- Então, tudo bem. Essas coisas não se transmitem no beijo.

- E quem disse que foi só beijo?

- Não foi só uma ficada, criatura?

- Sim, então. Ficar vai um pouco além do beijo.

- Ai, então me atualiza que eu fui adolescente lá nos anos 90, quando ficar era só beijo.

- O meu ficar é um pouco mais, digamos, abrangente.

- Ai, sua louca. E você não usou proteção?

- É claro que eu usei proteção. Vai que eu engravido, né?

- Então, para quê ficar tão encanada?

- Digamos que eu não tenho óvulos na garganta.

- Mas ele chegou a...

- Eca! Não, claro que não. E vai dizer que você usa camisinha para isso?

- Preservativos saborizados com tecnologia de ponta, meu amor. Já chupei com sabor
de morango, damasco, lima-limão, abacate, carne-seca, curry, ricota... Se bem que esse último eu acho que foi sem proteção mesmo.

- Dá para parar de falar besteira enquanto eu estou com um problema desses?

- Querida, eu já sei o que você precisa. Está com o bilhete de metrô aí?

- Sim. Você acha que já é motivo para eu me atirar na frente dele?

- Não, mas se você não parar de paranoia eu te jogo. O que você precisa é informação. Vem comigo.

Cris pacientemente conduziu a amiga a um Centro de Testagem e Aconselhamento (www.aids.gov.br/fiquesabendo). Aracy tinha a certeza de que todos a olhavam para com compaixão por ser uma portadora do vírus e logo foi conduzida para o atendimento.

- Pode me contar, doutora. Estou preparada. Fui infectada?

- Isso só saberemos depois do teste. Fica pronto em vinte minutos.

- Rápido assim?

- Sim, com a tecnologia de hoje é possível detectar a infecção por HIV muito rápido e
usamos os testes de dois laboratórios, para ter certeza. Vai ser só uma picadinha.

- Ui!

- Calma. Agora, me diga, por que você está aqui hoje?

- Então, doutora, eu 'mantive contato', a senhora entende, foi assim, uma vez só, mas eu cheguei a colocar a boca e aí, ferrou tudo de vez, porque isso é grave, né, é possível a gente pegar só de encostar naquele líquido que sai...

- Pode parar. Quando foi isso?

- Já tem oito meses.

- Ótimo. A janela para o teste dar errado hoje é de no máximo seis meses, mas a esmagadora maioria dos casos positivos são detectados em dois meses.

- Ai, que angústia!

- E como você sabe que o rapaz em questão está infectado? Ele mostrou o teste para você?

- Não, eu nem tenho mais contato com ele. Mas a gente ouviu dizer que ele tem perdido muito peso ultimamente.

- E em vez de achar que ele está de dieta essa turma da fofoca paralela preferiu sentenciar que ele está com HIV.

- Exato. Nossa, a senhora é boa mesmo.

- Saiba que hoje os portadores do vírus têm uma qualidade de vida tão boa que nem é mais possível identificá-los. Os sintomas demoram anos, às vezes até décadas para aparecer.

- Isso é para me acalmar ou me alarmar?

- Isso é para você aprender duas coisas: é muito importante a precaução em todas as modalidades de sexo e não podemos julgar ninguém pela aparência, seja qual for. Ah, que bom, já deu o tempo, olha aqui o seu resultado: negativíssimo em ambos os testes.

- Doutora, que bom que eu vim aqui! Ia gastar uma nota com o teste em um laboratório.

- Que iria demorar pelo menos três dias úteis e não daria esse aconselhamento psicológico, totalmente necessário em testes de HIV.

- Muito obrigado, viu, Dra. Elisa!

- Só estou fazendo o meu trabalho. E, apenas para constar, meu nome é Rosana. Elisa é o nome do teste.

Na saída, mais aliviada, Aracy abraçou Cris, agradecendo pelo suporte.

- Obrigado! Como você sabia desse lugar?

- O Charles me trouxe aqui quando começamos a namorar.

- Ai, que esquisito. Chamar para fazer teste de AIDS deve acabar com o romance.

- Eu achei muito estranho na hora, mas hoje acho que foi a coisa mais romântica que fizemos juntos. Sabe, assim ficamos ambos tranquilos. Parceria é isso, né?

- Sim, Cris. Parceria é poder confiar algo tão sério assim com alguém. Obrigada pela amizade!

- De nada. Mas, só para garantir, enquanto você se aconselhava eu dei um pulo ali na farmácia e comprei estes presentes.

- Ai, camisinhas de caramelo, maçã-verde e marrom-glacê? Só você para achar um troço desses!

- As de avelã com coco são minhas, tá, que ninguém me obriga a compartilhar!

23 de jul. de 2009

Teste de paciência

Karmem chegou com uma revista.

- Olha só, aqui tem um teste de personalidade que a minha chefe disse que é batata!

Pensei em perguntar se o teste ficava bom esmagado com creme de leite, ou se daria para assá-lo e recheá-lo com requeijão e bacon, mas preferi apenas concordar com a cabeça.

- Eu vou pedir algumas palavras e você me diz a primeira que vier na sua cabeça. Combinado?

As maiores discussões com Karmem geralmente apareciam depois de termos combinado qualquer coisa.

- Diga uma letra.

- Ah?

- Isso. Agora, me diga uma palavra de quatro letras.

- Três?

- Não, três não, quatro. Quatro letras.

- Então, a palavra “três” tem quatro letras.

Karmem escreveu a palavra no canto da página da revista, como tinha feito com o “A” da primeira pergunta e contou quantas letras tinha.

- Certo. Agora, uma de cinco.

- Cinco.

- Isso, de cinco letras.

- Então, “cinco”.

- Cinco? Essa é a sua palavra?

- Ué, cinco tem cinco letras. Será que é por isso que se chama cinco?

- Não sei, só sei que isso está muito esquisito. Diga agora uma palavra de seis letras.

- Quatro.

- Como, quatro? O teste pede uma de seis letras!

- Então, a palavra “quatro” tem seis letras...

- Você está tentando me irritar? Por que, se estiver, está conseguindo. Fala uma palavra de duas letras.

- Um.

- Uma de três letras.

- Uma.

Karmem suspirou tão fundo que uma frente fria da Argentina que estava na cidade subitamente desapareceu antes de me fazer a pergunta fatal, a que eu nunca soube responder, embora ela quisesse a resposta mais genial de minha parte:

- O que você está querendo me dizer?

- As primeiras palavras que vieram na minha cabeça, como você pediu. O que foi que você colocou quando fez o teste?

- Para qual item?

- O de uma letra.

- E.

- E o de duas letras?

- Eu.

- Sim, você. O que colocou na parte que pede uma palavra de duas...

- Então, eu coloquei “eu”.

- E na de três?

- Bom, primeiro eu coloquei “meu”, depois, troquei para “mim”.

- E na de quatro?

- “Tudo”. Aí voltei na pergunta de três letras e troquei de volta para “meu”.

- E na de cinco?

- Minha...

Fiquei até com medo de perguntar, mas fui em frente.

- E na de seis?

- Minhas... Mas você nem me deixou fazer a última pergunta.

- E qual é?

- Você tem que montar uma frase com a maioria das palavras que utilizou...

- Cinco, quatro, três, dois, um!

- Essa é a sua frase?

- Sim. Por quê, tinha que ser uma oração, com sujeito e predicado?

- Não sei, aqui na revista só pede uma frase. Mas é que agora eu ia dizer que as palavras não importam tanto, e sim a frase que você forma.

- Poxa, então, pela minha frase, acho que eu tenho aptidões para trabalhar na Nasa, não acha?

- Exatamente. Acho que você tem aptidão para sair desse planeta, isso sim.

- E que frase você formou no seu teste?

- “É tudo meu”...

15 de jul. de 2009

Recado - Revista Young

Pessoal,

Uma amiga acaba de lançar uma revista focada em gente jovem, e a editora me convidou para fazer uma colaboração no próximo número.

A primeira edição pode ser conferida aqui: Revista Young.

São dicas de viagem, de música, de saúde, de carreira, cujo foco são pessoas ali na casa dos vinte e poucos anos, mas que funcionam muito bem para todos nós (principalmente os que mantêm o espírito jovem).


Assim que a segunda estiver pronta eu posto aqui, combinado?

Abração!

1 de jul. de 2009

Solidão

Ouvir Karmem sobre todos os seus problemas sempre foi uma tarefa que eu desempenhava com muito carinho. Mas às vezes confesso que era difícil compreender toda a complexidade de algumas situações.

- Hoje foi um dia muito ruim para mim.

- Por que, coração?

- Imagine que de manhã eu acordei e pensei que ninguém no mundo gosta de mim.

- Que injustiça! Eu gosto muito de você.

- Você não conta.

- E quem conta?

- Ah, todo o resto!

- E a sua família?

- Só me trataram com desprezo quando desci para tomar o café.

- Jura?

- Sim. Meu pai buscou pãezinhos frescos na padaria, passou manteiga para mim e ainda me comprou um pão-doce de coco, o meu preferido.

- Isso é tratar com desprezo?

- Claro que é! Ele sabe que estou de regime.

- Entendo...

- Mas o pior foi durante o trabalho. Eu entrei na sala, disse ‘bom dia pessoal! Chega de tristeza, pois eu cheguei para alegrar o ambiente’ e sabe o que as pessoas responderam?

- O quê?

- ‘Bom dia’! Assim, sem nem elaborar a resposta!

- E como eles deviam responder?

- Se eu soubesse, teria dito a eles ontem, né?

- Acho que sim...

- Aí, como fiquei super chateada com isso, decidi não convidar ninguém para almoçar comigo. Peguei meu livro da bolsa e fui para a porta, decidida a refletir sobre a minha solidão e como não sou querida do jeito que mereço.

- Mas quando eu liguei pro seu celular você parecia rodeada de gente.

- Justamente. As pessoas me viram saindo e foram almoçar comigo, me perseguindo até o refeitório. Não me deixaram sozinha um só minuto.

- E você está reclamando disso?

- Claro. Estragaram a solidão que eu já havia planejado passar na hora do almoço. Não se pode nem mais ficar deprimida em paz nessa vida!

9 de jun. de 2009

Workaholic

Essa semana estou com a mente focada no trabalho, como se pode ver pelo vídeo abaixo: