29 de set. de 2008

Chapelão

De: Carlos Charles
Não eskeça o bukê!

Caio viu a mensagem e então lembrou-se de que havia se voluntariado para buscar o buquê de sua noiva, Elisângela. A cerimônia seria dali a algumas horas, tudo estava sob controle.

Ajeitou a cartola de cetim que improvisaram e anunciou aos amigos que precisava ir. O tio Almeida não quis deixar. Já eram oito horas da manhã e a despedida de solteiro ainda corria solta, como se tivessem acabado de chegar ao lugar.

Fora insistência do tio Almeida a festa. Não que Caio fosse avesso às comemorações (muito menos às mulheres), mas não fazia tanta questão assim. A verdade é que quem experimenta Elisângela (‘mulher’ é eufemismo, era uma versão melhorada do projeto) não se contenta com menos.

Mas foi mesmo assim, ouvindo a descrição do tio:

- Você vai ver sobrinho! Aquele lugar tem umas pequenas! Todas as stripers são universitárias!

- E isso serve para quê, elas dão dicas para passar no vestibular antes da gente comê-las?

Caio aproveitara a noite bebendo e contando anedotas, não traiu a confiança da noiva. Chegou a receber uma massagem das ‘universitárias’, regado a chantili, mas foi o máximo, além de ter o nariz empoado por um par de seios. Devidamente vestidos, claro.

Na saída, o tio ainda convidou algumas das garotas para irem com eles. Ele era assim, sedutor. As moças agradeceram, pois aproveitariam a carona. Era um boa pinta, e estava emocionado de ver o sobrinho com quase trinta anos casando. O próprio Caio achava que seguiria estilo de vida solteirão do tio até que conheceu a noiva.

E lá se foram, o tio dirigindo com uma das moças ao lado e o Caio com uma de cada lado no banco de trás.

A floricultura mantinha um registro severo de tudo que entrava e saía em relação a casamentos.

- O senhor assine aqui, aqui e aqui. E, por gentileza, tire os óculos.

- Ué, por quê?

- Fotografamos as pessoas que retiram buquês. Normas da casa.

- Nossa, mas precisa de tudo isso?

- Sem foto, não leva buquê. Ah, e o seu dedão vai aqui, por favor. Fazemos o registro da digital também.

- Vocês não acham um pouco exagerado?

- Já imaginou se o senhor perdesse o buquê da sua noiva?

- Prefiro nem pensar!

- Pois é, nós também não. Assim que o senhor assinar tudo, a nossa responsabilidade termina e respiramos aliviados.

O arranjo foi entregue dentro de uma geladeira de isopor quadrada, com as instruções de evitar abrir por algumas horas. Tudo para que Elisângela não casasse com um buquê de flores murchas.

Na volta, Caio trocou uma de suas acompanhantes pela do tio com a caixa devidamente alojada no chão do carro, para evitar pegar sol.

Quando desceu, o tio Almeida fez questão de perfilar todas as universitárias, pediu uma salva de palmas para o sobrinho e improvisou um discurso.

- Meninas, vocês estão diante de um dos homens mais dignos que já conheci.

Na família, todos sabiam de sua propensão a aumentar as qualidades dos conhecidos.

- Este rapaz, tão novo, é um dos médicos e engenheiros mais importantes do nosso tempo!

Caio só tinha o diploma de colegial técnico, mas conhecia os exageros do tio.

- Foi ele quem descobriu a cura para a síndrome de Aquiles, uma doença gravíssima que ataca os calcanhares, responsável por tantas calamidades! Vocês sabiam que foi isso que matou a princesa Diana?

- Ué, ela não morreu num acidente de carro?

- Se o motorista não tivesse essa enfermidade, ela estaria viva até hoje!

As stripers choraram, emocionadas, e aplaudiram, com sinceridade. No final, ainda encheram Caio de beijos na testa, nas bochechas e o deixaram de marcas de batom. O tio Almeida fez questão de abraçar uma a uma antes de entrarem de volta no carro e as presenteou como uma flor cada uma em agradecimento pela maravilhosa última noite de solteiro que haviam propiciado ao sobrinho.

Caio entrou em casa e só quis dormir. Acomodou ao isopor num canto fresco da casa. Estranho, ele tinha a nítida impressão de que quando havia pegado na floricultura havia uma fita adesiva lacrando a caixa. Bom, depois de tantas horas sem dormir, a gente imagina cada coisa!

Horas mais tarde, foi despertado por Elisângela, que, aos berros no telefone, exigia seu buquê, pois já estava praticamente pronta.

- Mas meu bem, ainda faltam três horas pro casamento... Não, ainda não tomei... Sim, já estou entrando... Aguarde que eu já chego!

O noivo é sempre mais prático: banho, barba, desodorante, terno e gravata depois, já estava pronto para a cerimônia. Tudo certinho.

Por curiosidade, resolveu abrir e dar uma espiada no buquê. Sabe como é. Podia estar meio torto, melhor ver antes do que entregar para Elisângela.

E foi então que o raio de mil watts acertou em cheio sua cabeça. A caixa estava vazia. Inexplicavelmente vazia. O interior tão solitário quanto Caio ficaria se não levasse o buquê.

“Mas como é possível? Eu mesmo vi a garota da floricultura embalar aquele emaranhado de flores brancas e verdes! Iguais às que...”

Sim, o Tio Almeida abrira a caixa de isopor pensando que ela guardava cerveja, mas, quando vira as flores ali, desatou os nós e as deu para as meninas da noitada. Tão gente boa, elas mereciam!

Sem saber o que fazer, Caio desceu para o jardim do prédio e procurou por algo que as substituísse. Viu, ironicamente, apenas uma plantação de ‘marias-sem-vergonha’. Era o único jeito. Amarrou um punhado delas com um cadarço antigo e enfiou na caixa original da floricultura.

“Vou pôr a culpa neles. Diacho, eles me fotografaram segurando o buquê, não vai colar!”.

Seguiu assim mesmo para o salão onde Elisângela fazia o dia da noiva e, sem olhar para trás, rumou para a igreja. As marias-sem-vergonha o fariam ganhar tempo até chegar lá e arrancar alguns dos arranjos da igreja e montar um novo buquê!

Caio suava frio. Todos os amigos o apontavam:

- Nossa, ele deve estar emocionado!

Estava sim, pois o padrão de flores da igreja era diferente do buquê. Elisângela não queria entrar com um item parecido em suas mãos, o fator surpresa era o mais importante em tudo: vestido, grinalda e, claro, buquê.

- Sua gravata está torta, me deixe arrumar. Deu tudo certo, né? Hoje acaba o seu e o meu martírio!

Desabafou Carlos Charles, melhor amigo da noiva, cujo celular logo tocou.

- Alô! O quê? Como assim? Não é o mesmo? Tem só um monte de mato?

Conhecendo sua noiva, Caio começou a planejar mentalmente mudar-se para a África naquele instante. Mas preferiu olhar em volta, como se a solução fosse brotar na sua frente. E foi o que aconteceu. Tomou o celular das mãos de Carlos e disse:

- Meu bem, desculpe a brincadeira! Eu queria só nos descontrair... Você vai ter o seu buquê quando chegar aqui. Confia em mim? Sim, o Carlos está fazendo que sim com a cabeça...

A segunda surpresa do dia foi ver as mesmas flores ali, zanzando pela nave da igreja, alocadas num chapelão. Laleska, grande amiga de Carlos Charles (vide "Duelo de Grinaldas"), trajava um discreto vestido, mas fizera questão de um chapéu bem grande, todo florido. Estranhamente, com o mesmo tema do buquê de Elisângela. Mas muito propício, pois Caio surrupiou sorrateiramente o adereço por trás e tinha o buquê de volta às suas mãos!

23 de set. de 2008

Domingo como outro qualquer

- Por que você não gosta de ir ao teatro, meu querido?

O comentário de Karmem despertou uma série de lembranças. Quase todas da primeira vez em que fomos ao teatro. Por “Teatro popular, entrada gratuita”, leia-se: “agüente esperar mais de três horas na fila e decidiremos se você merece assistir à peça”.

Chegamos cinco horas antes do início da peça (isso porque eu adiantei todos os relógios da casa de Karmem em mais de oito horas).

- Ah, meu cumprido, não acredito que você me enganou... Mas tudo bem. A gente fica aqui, namorando, né?

- É... Mas entenda que eu fiz isso para a gente pegar os melhores lugares.

Realmente, não havia mais ninguém na fila e ficamos namorando. Geralmente eu tinha cerca de vinte minutos de beijos intensos que calejavam a língua até que Karmem começasse a reclamar de alguma coisa. Ela queria sentar. Queria água. Queria ir ao cabeleireiro. Queria comprar um par de sapatos. Queria que eu pagasse pelos sapatos e pelo cabeleireiro. Recusei um a um, explicando que não era possível sair da fila, pois logo os seguranças passariam distribuindo as senhas. Mas ela esperou até que a fila já tivesse pelo menos cinqüenta pessoas para me fazer o pedido mais esdrúxulo do dia:

- Milococo, preciso peidar. Você assume?

- Como?

- É, já que eu tô vendo que você não vai me deixar sair para ir ao banheiro, vou ter que soltar aqui mesmo, mas não quero passar vergonha.

- E você quer que eu faça o quê? Que comece a gritar: “gente, fui eu!” quando o pessoal sentir o cheiro?

- Não, seu bobo. Basta fazer desesperadamente cara de quem está querendo dizer que não foi, mas não consegue achar um jeito de dizê-lo. Entendeu?

- Você não prefere ir ali, perto daquele gordinho?

- Por quê?

- É a regra principal de quem desejar soltar pum em público, ficar ao lado de algum gordinho. Todo mundo vai achar que foi o gordinho e não você. Existe uma crença coletiva, baseada na hipótese de que todo gordo come mais, que acredita que as pessoas brancas, heterossexuais, de classe média e, principalmente, magras não liberam gases intestinais. Puxa, isso deveria ser ensinado na escola – salva a gente de muitas situações embaraçosas.

- Mas e por que você acha que eu só faço isso quando você está do meu lado?

- Você não está querendo dizer que...

- Sim...

- Não! Eu sou o gordinho! Tudo bem, pode soltar...

- Tarde demais, agora já foi.

E Karmem fez cara de quem está assistindo a um concerto de violinos enquanto eu, surpreso, tentava desesperado dizer com o olhar “Não fui eu! Não fui eu!”, o que só fez com que todos me atribuíssem a culpa.

Felizmente a fila era a céu aberto e logo aquilo passou. Mas não as vontades de Karmem.

- Olha aqui, eu já não agüento mais! Vou comprar uma garrafa de água ali na padaria da esquina.

- Mas Karmem, faltam só três horas e meia para começarem a dar as senhas!

- Dá tempo, então, é rapidinho...

- Mas e se começarem a dar as senhas antes?

- Você diz que eu fui só ali comprar a garrafinha de água e já volto, ué. O que tem de difícil nisso?

- Você não conhece os seguranças daqui, Karmem! Eles foram treinados para não deixarem nem a própria mãe furar a fila! Quando alguém diz que está esperando outra pessoa, eles disparam um cronômetro e aguardam por trinta segundos! Se o esperado não aparece, eles levam o que está esperando para um quartinho nos fundos do teatro...

- E o que fazem com ele?

- Não se sabe. Ninguém nunca voltou para contar.

- Ah, não quero saber! Eu vou só até ali, vai dar tempo, e você fique esperando aqui e vê se finge que é macho e pega a senha para mim se o bundão do segurança passar.

- Karmem, não! Não vá!

Para minha surpresa, Karmem voltou. Mas não para ficar:

- Me empresta seu cartão? A minha carteira ficou na outra bolsa...

Quando um homem sabe dominar a mulher que tem, dá-lhe ordem de parar com frescura e deixar de ser folgada. Assim, eu disse:

- Claro, docinho. Toma. A senha você já sabe, né?

Cento e quarenta minutos depois, comecei a questionar se teria sido uma boa idéia deixar Karmem solta com o meu cartão. Concluí que não quando vi os seguranças começarem a dar as senhas. Três deles, quatro, se contarmos com o dobermann que vinha junto com rosnando para o pessoal da fila, todos mais altos do que eu, com os cabelos raspados à máquina e uma discreta suástica tatuada na nuca. Todos, inclusive o cachorro.

- Eu estou com a minha namorada... – balbuciei.

- Onde ela está? - gritou um deles.

- A-ali, c-comprando ág-gua...

O segurança ergueu o punho e eu fechei os olhos para só ouvir um ‘tic’: o cronômetro estava correndo!

Para minha sorte, Karmem possuía o estranho dom de aparecer nas horas certas – nunca na hora marcada, entenda bem – e surgiu atrás dele. O cronômetro foi parado e recebemos as senhas.

- Ufa! Mas o que foi que aconteceu? Por que demorou tanto? E cadê a água?

- Água? Ah, a água! Já tomei. Sabe, foi a primeira coisa que eu fiz, comprei a água lá na padaria. Aí, quando eu estava voltando, vi aquela loja de sapatos que estava em promoção...

- Sapatos? Mas não tem loja de sapatos no caminho até a esquina!

- Eu sei, é que eu me enganei, acabei saindo pela porta da outra rua e fui seguindo em frente mais ou menos uns sete ou oito quarteirões até me dar conta de que não estava na Paulista... Aí, já viu, né? Ainda bem que o comércio agora abre aos domingos!

E de fato eu via. Via cinco sacolas em suas mãos e imaginava a minha conta às moscas no banco.

Mais alguns minutos e finalmente conseguimos entrar na sala. Sentamos nos lugares numerados depois que consegui convencer Karmem de que G-50 não dava no mesmo que J-05. Senti as pernas descansarem por algum tempo e continuamos com os beijos de garganta até ouvirmos uma voz fininha, na fileira de trás:

- Puxa, assim eu não vou conseguir enxergar...

Karmem não gostou do comentário e fez outro, fazendo questão de falar alto para a moça ouvir:

- Essa sala é tipo estágio!

- Estádio, Karmem! Estádio!

- Ou isso! A fileira de trás é mais alta que essa, eu que não vou ficar me abaixando só por que uma pigméia resolveu vir ao teatro! E onde já se viu ficar reclamando dos outros? Por que não cresce e aparece? – tudo isso sem olhar para trás.

Como a curiosidade me é mais peculiar que à Karmem, olhei. E morri de vergonha. Com as sacolas nas mãos, tentei dizer a Karmem de uma característica (marcante!) da moça que sentava atrás dela. Fui apontando para as letras nas sacolas e soletrei A-N-A.

- Ana? Quem é Ana? Você conhece ela? É sua amiga?

- Karmem, o segundo ‘A’ tem til.

- Tio?

- Não, til!

- Ana é a mulher do seu tio?

- Não, Karmem, é uma anã!

Os grandes olhos de Karmem pareciam brilhar. Eu estava prestes a descobrir a estranha reação que os anões tinham sobre Karmem. Desde que os vira pela primeira vez, na Montanha Encantada, quando tinha três anos e saiu do barquinho para correr até os anõezinhos da Branca de Neve, Karmem sentia-se obrigada a esticar o braço, tocá-los no nariz e soltar uma gargalhada de muitos decibéis. E foi o que ela fez. Depois, coube a mim pedir desculpas, enquanto Karmem se ajeitava para permitir a visão da peça à anãzinha e tentava parar de rir.

O terceiro sinal soou e a peça começou. Perto do que já tínhamos vivido até ali só naquele dia, a peça foi tediosa. Ela retratava uma outra visão de Hamlet, focando na personagem Ofélia, com um time de vinte atrizes, cada uma interpretando uma face da personagem, entende? Não demorou para Karmem fazer palhaçadas. Pular na cadeira. Introduzir canudinhos no nariz. Depois tentar colocar os canudinhos na minha boca. Pedir para eu engolir uma bala achada no chão do teatro. Ameaçar rir da anã outra vez.

Menos de quinze minutos de peça e as luzes se acenderam. Os seguranças do teatro voltaram, desta vez com três dobermanns. Nos levaram até um quartinho nos fundos, iluminado apenas por uma lamparina a querosene.

- Então, vocês estavam rindo numa peça trágica?

Como eu já disse, Karmem tinha muita sorte. Naquela hora, vimos um sujeito, com longas barbas e cabelos, como se não os cortasse há anos, sair correndo de um canto escuro do quarto, com correntes nas mãos, e gritando:

- Mas eu juro que ela só foi no banheiro! Bando de loucos! Aposto que a peça já acabou!

- É o Algemiro, de novo! Peguem-no!

E saíram todos, seguranças e cachorros, com aparelhos de dar choque nas mãos, atrás do Algemiro, que eu desconfio que tenha ido assistir a uma peça com Cacilda Becker algum dia. Karmem, que sempre teve mais reflexos do que eu (vai ver por isso passava tanto tempo em frente ao espelho), agarrou minha mão, as sacolas e saiu correndo.

Ofegante, entramos no metrô para ir embora.

- Desculpa, Karmem, deu tudo errado...

- Tudo errado? Mas eu adorei! Vamos de novo no domingo que vem?

Meu único consolo foi pensar na lição que eu havia aprendido muito bem naquele dia e concluir “Bom, já que eu vou levar a culpa mesmo, vou aproveitar e relaxar”.

- Nossa!

- O que foi, Karmem?

- Acho que soltei um pum sem perceber!

- Será?

E fiz cara de quem está esperando o elevador.

10 de set. de 2008

Conversa com meus botões

Sempre achei curiosa a expressão conversar "com os meus botões". Não sei de onde vem a expressão (neta de "os colarinhos da vó", talvez?), mas imagino o perigo que ela representa: os botões teriam a capacidade mediúnica ou telepática de ouvir os nossos pensamentos. E por que gostamos de tê-los como ouvintes? Oras, a resposta é clara: porque os botões não têm o menor senso crítico e, ainda que o tivessem, não têm meios de expressá-los.

Lembro da vez em que cheguei a uma entrevista de estágio duas horas antes do combinado (nem a faxineira tinha chegado) e encontrei o presidente na entrada da empresa. Ele, cuja barriga só não era maior que o próprio ego, desatou a falar:

- Então, você faz faculdade? Pois é, eu já fiz faculdade e blá, blá, blá...

Por duas horas concordei com a cabeça, fiz "ã-hã" algumas vezes e pensei "Acho que não vai rolar. O cara deve estar pensando que eu sou um retardado, ou mudo, ou fanho... Não abri a boca praticamente". Quando chegou a entrevistadora, a surpresa:

- Bom dia, Fulana. Pode contratar esse cara - disse ele.

- E por quê?

- Ele é muito bom de papo!

Por quase dois anos em que estagiei na empresa, servi de ouvinte. Desconfio que, cada vez que os botões de enchiam de escutá-lo, ele me chamava. Diga (ou pense) a verdade - é bom ter alguém que nos ouve o tempo inteiro sem nos interromper.

Agora, pare para pensar no que são obrigados a ouvir os botões. Cada pensamento seu. As promessas nunca cumpridas "ah, mas nunca mais ninguém me diz isso", "a partir de hoje, vou usar os cotonetes sempre que tomar banho", "esse mês eu não vou gastar mais nada - chega de pré-datado!" (num dia 7). As resoluções que nunca tomamos "Mas esse ano, eu largo tudo e vou ser pescador de camarão em Minas Gerais (ignorando que você não consegue nem pegar o peixinho dourado do aquário com o coadorzinho de leite e que Minas Gerais não tem mar)". Isso sem falar nas grandes questões filosóficas e socias "mas eu não entendo por que o governo não pede para que todo mundo da classe média guarde os copinhos de iogurte e plante feijões com algodão! A fome seria erradicada em quatro meses..."

Sim, você estava lá, pensando em tudo isso e os botões ouvindo, com um sorriso de desdém ou com rostos entediados e você nem percebeu.

Vamos traçar um outro cenário - no qual os botões tenham voz. São feitos de casca de coco transgênico ou fruto da brincadeira de algum mago chegado a traquinagens - escolha a alternativa que mais lhe agrada.

O cidadão está calmamente pensando a caminho do trabalho "ah, mas de hoje não passa! Vou dizer tudo o que eu penso e aí..." Mas não consegue concluir o pensamento e ouve um risinho "Hi, hi, hi... Até parece!"

- Mas quem está rindo?

"Oras, quem, seus botões!"

- Botões?!?

"É! Ou você acha que a gente ia agüentar ficar ouvindo esse monte de asneiras sem nunca retrucar? Já basta tudo que a gente agüenta aqui embaixo..."

Perdendo totalmente a noção do ridículo, o sujeito prossegue a conversa:

- Como assim, agüentar? O trabalho de vocês nada mais é do que ficar aí,

pendurado numa casinha...

"E você acha que é fácil numa quarta-feira?"

- O que é que tem quarta-feira?

"Feijoada, meu caro, feijoada. E a sua barriga tentando escapulir para fora da camisa e a gente segurando a onda. Toda quarta é a mesma coisa na sua cabeça 'essa é a última vez que eu como tanta feijoada'... Até a outra quarta-feira!"

Uma voz mais grossa corta a conversa, para dar também seu ponto-de-vista:

"Olha, isso não é nada, por que todos os dias eu passo por uma humilhação ainda maior... Levo vários respingos cada vez que você vai ao banheiro e ainda fico ouvindo os apelidos que você dá ao próprio equipamento - 'grande tora', 'desbravador de cavidades' - he, he, he!"

- E esse agora, quem é?

"Esqueceu que tem um botão na calça também?"

Não, não, é melhor que os botões continuem a nos ouvir calados. Vai ver eles já desenvolveram a capacidade de falar, mas chegaram à conclusão que simplesmente não vale a pena. O mundo ainda não está preparado para suas revelações e nem para aceitar as críticas, tampouco tem maturidade suficiente para seguir seus conselhos.

Por via das dúvidas, já estou tomando mais cuidado para não respingar nos botões.

8 de set. de 2008

Agora

"Você vai casar? Tem que ser Agora!

A Agora! Assessoria em Casamentos garante a cerimônia dos seus sonhos.

Fale com uma de nossas consultoras e lembre-se: se você vai dizer 'sim', tem que ser Agora!"

Carlos Charles guardou o cartão no bolso externo do paletó pois sabia que ele renderia boas risadas mais tarde. Na sua frente, a simpática consultora da Agora! Casamentos ajeitava os cravos na lapela de todos, inclusive daquele tio que bebeu antes de chegar e perguntava se ela era o padre.

- Ai, ai, ai, ai, ai.

Na escala de 'ais' de Carlos Charles (na qual cada 'ai' representava um nível de breguice), os convidados receberam cinco. Mas sua missão ainda estava começando e ele deveria guardar suas forças para o que ainda estava por vir.

Primeira tarefa: registrar a noiva. Esperou que todos os convidados e o noivo entrassem e postou-se na lateral da igreja.

Lá veio ela, pontualmente. Desceu do carro, um Cadilac rosa, em seu vestido bordado de lentejoulas fruta-cor. Carlos apontou o celular, mirou e guardou a cena.

No mais, até que a cerimônia foi tranqüila.

Tirando algumas gafes, como o fato da noiva não ter respondido o tradicional 'sim'.
Ousada, quando o padre fez a pergunta da noite, disse com convicção:

- Com certeza!

Foi ovacionada com uma chuva de risoto de frango, já preparado para ser servido no bufê, e de lá o novo casal partiu em uma carruagem cujo padronagem seguia a mesma do vestido.

"É agora que eu entro", pensou Carlos, ajeitando a gravata cheia de cristais.

- Com licença? O senhor pode me acompanhar?

Chamou de lado o rapaz da decoração.

- Em primeiro lugar, este tapete. Veja, tem dobras em tudo que é lado. Ajeite! Em segundo, pode substituir essas flores murchas.

A verdade é que fossem elas de plástico como desejava a garota-furta-cor recém desencalhada e não seria necessário, mas elas não resistiram aos ataques das mãos dos convidados, que só não as levaram porque os arranjos estavam bem amarrados.

- E as bananeiras do altar, remova.

- Mas quem é o senhor?

- Não interessa! A próxima noiva não quer nada disso! Vamos, que ela não vai casar com o Tarzan. Tire as bananeiras.

Mas que fique claro que não fora um erro do decorador, o toque tropical havia sido imposição das outras noivas.

- E onde que eu vou colocar?

- Acho melhor não me peguntar e descobrir um lugar logo logo, ou eu vou explicar.

Logo começaram a chegar os convidados do casamento de Elisângela. Laleska, uma transexual chamado Osvaldo, fez questão de usar um motivo de flores na cabeça.

Em poucos minutos, a igreja estava exatamente como Elisângela vislumbrava e Carlos a avisou pelo telefone:

- Está tudo do jeito que você quer. Pode vir.

Na maison, Elisângela finalmente respirou aliviada, fazendo com que o clima sossegasse. Não por acaso, havia uma profissional de massagem terapêutica estrategicamente contratada ali. Para aliviar os estresse dos funcionários, obrigados a lidar com noivas semanalmente. Dessa vez, até ela estava acalmando Elisângela.

- Calma, é só o seu casamento, tudo vai estar do jeito que você quer...

Mas nunca tudo estava do jeito que Elisângela queria. Quase foi com bobes e tudo cuidar pessoalmente da decoração. Foi contida pela turma do penteado, que a cercou e a prendeu com os fios dos secadores de cabelo.

- Calma que ainda faltam os últimos ajustes no topete! Segura ela na cadeira!

O noivo aguardava no bar da esquina e comenta-se que ficou extremamente feliz, afinal, ganhara o campeonato de sinuca do começo da tarde.

Posicionados todos os convidados, a igreja parecia um harmonioso mar de tecidos e texturas. Elisângela tinha razão: a decoração simplista fez com que seus trajes ornassem com o restante, ganhando o merecido destaque.
(continua)

27 de ago. de 2008

Chat

Elisângela diz:
Não gostei.

Carlos Charles diz:
Oi? Hello?

Elisângela diz:
Não gostei dos vestidos que o estilista desenhou para mim.
Não concordei com nenhuma das propostas.

Carlos Charles diz:
Boa tarde para você também, vou muito bem, obrigado por perguntar.

Elisângela diz:
Ah, não enche com bobagens!

Carlos Charles diz:
Mas como assim não gostou de nenhum? O cara é o bam-bam-bam dos casamentos.

Elisângela diz:
Não importa, não gostei. Nenhum refletia minha personalidade.

Carlos Charles diz:
Bem, se você queria um espelho, por que não pediu a ele de uma vez e pronto?

Elisângela diz:
Haha Mas você sabe o que eu quero dizer.

Carlos Charles diz:
Sim, imagino a sua cara torcendo o nariz para vestidos que outras mulheres dariam um rim para ter.

Elisângela diz:
Por mim, podem levar em troca de uma paçoca, que eu não ligo. Quero algo que tenha a minha personalidade, não o que está na moda.

Carlos Charles diz:
Ou seja, estamos falando de uma peça que diga "eu sou melhor que você", mas de uma maneira clássica.

Elisângela diz:
Você sempre consegue traduzir o que eu digo!

Carlos Charles diz:
Se joga na igreja com uma faixa com o seu CEP!

Elisângela diz:
Hahaha Não, vamos falar sério. O quê que eu faço?

Carlos Charles diz:
E como é que eu vou saber? O mais difícil, conseguir um homem compreensível que aturasse todas as suas loucuras, você já fez. Será que precisa de tanta frescura assim com o vestido?

Elisângela diz:
.....................

Carlos Charles diz:
Ok, não está mais aqui quem digitou.

Elisângela diz:



Carlos Charles diz:
Acho que deu erro, não veio a mensagem...

Elisângela diz:
(não deu erro, mandei em branco para deixar claro que não estou falando com você)

Carlos Charles diz:
Hahahaha Deixa disso!

Elisângela diz:
Vai me ajudar ou não?

Carlos Charles diz:
Vamos organizar o pensamento.

Elisângela diz:
Tá.

Carlos Charles diz:
Primeiro, vamos de branco mesmo? Seguindo a tradição e até porque noiva de outra cor fica igual a qualquer outra da festa que vai querer chamar mais atenção do que você.

Elisângela diz:
Certo.

Carlos Charles diz:
(Acredite, tem mulher que encomenda vestido claro para se fazer passar pela noiva)

Elisângela diz:
Os seguranças do bufê já estão avisados para barrar qualquer pessoa com traje branco, creme, amarelinho claro ou qualquer tom pastel, mesmo que seja azul bebê. Quem tentar passar por eles será convidado a se retirar ou terá as vestes imediatamente rasgadas.

Carlos Charles diz:
Arrasou na regra!

Elisângela diz:
Faço o meu melhor.

Carlos Charles diz:
Você quer parecer uma princesa elegante, sem as mangas bufantes da Lady Di, com um frescor vespertino e uma aura de feminilidade. Certo?

Elisângela diz:
Certo, certo, certo!

Carlos Charles diz:
Talvez eu tenha algo bom para você...

Carlos Charles envia o arquivo: Bride.jpg
Transferência de "Bride.jpg" está completa.

Open

Carlos Charles diz:
Abre aí!

Elisângela diz:
Carlos, esse é o meu vestido! Onde você achou?

Carlos Charles diz:
Haha Esse crédito não é meu... Sua mãe falou comigo ontem à noite. Ela viu seu desespero e pediu à mesma estilista que fez o vestido do casamento dela, lá na Suécia, fazer o seu. Como ela não entende muito de computadores, pediu para que eu recebesse a foto dele pronto. E, obviamente, guardei o arquivo!

Elisângela diz:
Mas ele é lindo e tem a minha cara!

Carlos Charles diz:
Eu sei... E já está viajando de avião para cá. Com as milhas que ele vai acumular, depois o vestido vai poder voar até Buenos Aires.

Elisângela diz:
E você sabia disso o tempo todo?

Carlos Charles diz:
Sim.

Elisângela diz:



Carlos Charles diz:
De novo?

Elisângela diz:
(Se quiser que eu volte a falar com você, me busca um frappé).

Carlos Charles diz:
Vou pegar! Este cyber tem um dos melhores frappés que já tomei!


Carlos Charles alterou o estado para "Volto logo".

Carlos Charles alterou o estado para "Online".

Carlos Charles diz:
Toma!

Elisângela diz:
Não quero de morango. Queria de chocolate!

Carlos Charles diz:
Por isso que eu não me caso!

Elisângela diz:


Carlos Charles diz:
Tá bom, vou trocar. Ai, mas não me belisca!

Carlos Charles está off-line

26 de ago. de 2008

Fanatismo

Você conhece a história. Modelo, engravidou de jogador de futebol. A diferença, neste caso, é que ela era paraguaia, não brasileira. Mas a ascensão às colunas sociais foi tão vertiginosa quanto qualquer outra. Pudera, estava grávida do Canhão Canhoto, a, então, promessa do futebol no país. Infelizmente, o Canhão Canhoto, depois de chegar à seleção, perdeu totalmente a mira e sua artilharia acertou apenas o óvulo de Teresa, a popular Tuta, apelido de infância pelo qual ficou conhecida assim que pisou pela primeira vez na passarela.

A Tuta logo ganhou mais espaço no noticiário e, num golpe de azar para o jogador, mas de muita sorte para ela, um acidente de avião a tornou viúva sem nunca ter se casado. Em seu ventre ficou o herdeiro do Canhão, que depois viria a se confirmar ser uma menina, batizada de Yota (pronuncia-se Xôta).

A sorte foi mesmo dela, pois logo apareceu em todos os programas de televisão para contar sua história. Posou nua, fez um filme pornô e lançou um livro, “My Vida con El Cañón", cuja proposta era mostrar fotos tiradas pela própria Tuta durante os momentos de mais, digamos, intimidade com o atacante.

Não demorou a ganhar seu próprio programa de televisão. Infantil, claro.

Isso foi há quase trinta anos. Hoje, a Tuta é um ícone da TV e já está formando sua quarta geração de espectadores. À medida que a idade foi passando, os decotes foram descendo e a barra da saia subindo.

- Tuta, a direção da emissora mandou dizer que você tem que colocar pelo menos uma saia para apresentar o programa.

- Mas eso és una saia! Solamiente un poquito curtita, pero és una saia!

- Disseram que pêlo pubiano é demais para antes das 22 horas.

Em seu auge, o programa Tudo da Tuta chegou a ter mais de oito horas de exibição diária. Os fãs ficaram conhecidos como Tutitos e Tutitas, o apelido carinhoso que ganharam da apresentadora.

- Tutitos e tutitas, nón aperten todos los botóns del elebador, és feo... Aprendam con su amiga Tuta: “tiene q apertar solamiente en tu andar”. Si? Concordan? Que Bueno! Sinto una cosa buena aqui em my corazón quando miro para usteds, tutitos!

E Tuta pressionava o próprio peito, fazendo vibrar o silicone.

Foi ela o único motivo de discórdia entre o Ricardo e a Sandra.

Conheceram-se na ótica em que ela trabalhava, quando o Ricardo foi mandar fazer seu novo par de óculos.

- Olha, deixa eu arrumar a haste para você. Esta armação combina bastante com seu rosto, que é muito harmonioso.

- Aposto que você diz isso para todos os míopes que não conseguem enxergar direito na hora de escolher.

- Hihihihihi.

Trocaram telefones e começaram a sair, mas foi só no terceiro encontro que ela viu tatuada a frase ‘Tutito Para Siempre’ no antebraço do rapaz.

- Nossa, você fez uma tatuagem em homenagem à Tuta? Isso foi na adolescência?

- Não, foi semana passada. Eu queria dizer isso a você antes, porém não tinha encontrado coragem. Eu sou fã da Tuta.

- Fã?

- Sim, fã. Assim, vidrado mesmo.

- Mas você já beira os trinta anos...

- E o quê que tem?

Só uma coisa tirava Ricardo do sério: que dissessem que ele era velho demais para ter um ídolo infantil.

- Tuta é energia, Tuta é positividade, Tuta é atitude, Tuta é top e por isso desperta inveja nas pessoas, Tuta é tudo. Ela é uma pessoa tão iluminada, que faz o bem para tanta gente. Você sabe do projeto dela para assistência de pessoas autistas e com síndrome de Down?

“Deve ser porque o trabalho dela está no mesmo nível de compreensão deles”, raciocinou Sandra e preferiu mudar de assunto. Assistia à Tuta quando criança, mas desde que fizera treze anos mudara sua atenção para artistas adolescentes e depois para cantores adultos.

No fim, embriagada pela possibilidade de um amor novo, achou até a idéia engraçadinha. Ricardo ficava bonitinho bravo, franzia a testa e deixava mostrar um defeitinho no dente que ela ainda não havia reparado. No fundo, Sandra sempre fora uma garota muito maternal e enxergava ali um provável garoto que precisaria de sua atenção e cuidados.

Empolgou-se no dia em que foi conhecer a mãe do rapaz.

- Então, aqui é o seu quarto?

Foi entrando e avistou um vulto na cama, debaixo dos lençóis.

- Quem é aquela mulher dormindo na sua cama? Você não disse que não tem irmãs?

- Ah, aquela é a minha Tuta inflável. Foi entregue ontem. Finalmente consegui encontrá-la, só foram feitos quinhentos mil exemplares dela, um item raríssimo de colecionador! É tão realista que uma vez por mês ela menstrua.

A mãe dele, na verdade, não era a que estava na cozinha, preparando o almoço para a nora. Era a Tuta, que se fazia presente em diversos itens espalhados pelo quarto, todos ‘raridades de colecionador’, como Ricardo ressaltava ao descrever cada um deles.

- Esta foto é da campanha de introdução de uso de preservativos para crianças de menos de dez anos, essa é do ensaio para a Revista de Ginecologia Moderna. Olha, ela autografou para mim bem ao lado das trompas de falópio!

- Nossa, esse disco aqui eu também tinha. Não tem aquela música, a Tabuada da Tuta?

- Tem, sim.

- Engraçado, na época não parecia absurdo, mas não é estranho que ela só cantava até a tabuada do dois?

- Sim, existiu uma gravação em que ela cantava até a do quatro, mas como ela não conseguia decorar para cantar ao vivo, diminuíram para essa. A Tabuada da Tuta até o quatro é hoje um item raríssimo de colecionador – que eu tenho, claro!

Sandra passou a acompanhar Ricardo nos shows, entrevistas e aparições públicas de Tuta. Preparava garrafas térmicas com leite achocolatado, chá de limão gelado, além de bolos e tortas, pois a vigília na calçada em frente ao hotel começava horas (às vezes até dias) antes dos eventos.

- Soube que ela vai estar na cidade com a Yota para dar entrevista no programa ‘O que se faz de noite se faz de dia também’.

- Corre para a porta da emissora!

Organizadas em equipes de fã-clubes, todos ficavam à espreita para conseguir uma foto, um pedaço do cabelo, um beliscão que fosse do ídolo.

- Olha ali, San, aqueles são nossos rivais.

- Como assim, rivais?

- Eu sou o presidente do fã-clube El Hijos de Tuta, eles são do Prós-Tutitas. Não nos damos bem.

- Ué, mas não são todos igualmente fãs?

- Ai, como você não entende as coisas! A Tuta não tem tempo de atender todos, por isso, nos dividimos em grupos e atacamos em bando para conseguir uma foto com ela! Hoje é o meu dia de tirar.

Um pompom cruzou o ar, iniciando o que Sandra chamaria para sempre de sua primeira vez nas trincheiras. Os clubes se atacavam mutuamente, cada qual bradando como um grito de guerra os itens que possuíam:

- Meu vinil da edição eslovena do Tuta Ensina a Contar Até Dez está autografado!

- Minha boneca Tuta Mulher-Bomba tem explosivos acoplados que detonam de verdade!

- Eu tenho a cópia da certidão de nascimento da Yota!

- Eu tenho a original!

E voavam pelos ares faixas, bandeiras, cartazes, tudo que havia sido confeccionado em homenagem à apresentadora.

Aproveitando a distração entre os fãs, o automóvel que transportava Tuta saiu da garagem da emissora.

- Olha ela lá, cerca!

Atordoada, Sandra viu o seu namorado e membros de ambos os fã-clubes se atiraram na frente do carro. Ricardo pulou sobre o capô e gritava para Tuta o quanto a amava. Foi arremessado ao dobrarem a primeiro esquina, o que lhe rendeu arranhões na panturrilha.

- Eu acho que consegui!

- Conseguiu o quê?

- A Tuta sempre leva uma máquina fotográfica e registra tudo para depois colocar no site do programa depois. Acho que consegui colocar o rosto na janela bem na hora que ela bateu uma foto!

Quase um mês depois, o Tuta.com atualizava suas fotos e, na seção “Mys Amigos Tutitos”, lá estavam as imagens daquele dia.

- Olha, Sandra, eu consegui! Sou eu aqui no site oficial da Tuta!

- Onde, que eu não estou vendo?

- Aqui, no fundo, na janela, olha! Ai que emoção! Os Prós-Tutitas vão morrer de inveja! Vou escrever um comentário: “Viva el Hijos de Tuta”.

- Que pequenininha a sua cara aqui, né? E o que é isso marrom aqui no canto? Parece... Não, não pode ser... É um mamilo?

- Sim, eu estou na mesma foto que o mamilo da Tuta!

- Mas eles nem usaram um editor de imagem para apagar?

- Fotojornalismo é assim! A Tuta só faz sucesso porque é espontânea, é gente como a gente. Todo mundo tem mamilo, para quê esconder?

- Olha, aqui na seção de agenda diz que vai ter participação dela nesse show no parque amanhã. Você vai querer ir?

E Sandra, só de olhar a alegria estampada no rosto do rapaz, foi tratar de preparar as garrafas para o chocolate e o chá.

18 de ago. de 2008

I realmente lovo meu amor

“Você não pode perder Marília Bonde, com a turnê dos sucessos do seu novo CD I Love Meu Amor, todas as quintas, sextas, sábados e domingos de agosto reinaugurando o Opera House of Concert em São Paulo”

- Nossa, que cedo. Ainda faltam dois meses para agosto...

Mas Karmem já estava petrificada ao meu lado. Conseguiu apenas balbuciar algumas palavras, olhando para o rádio.

- Marília Bonde... I Love Meu Amor... Eu... Preciso... Ver... Esse... Xou...

Eu já conhecia o brilho naqueles enormes olhos castanhos. O brilho que eu buscava em todas as minhas ações durante os anos em que a namorei.

- Se você quiser, eu levo você na estréia. O Opera House of Concert fica a oito quarteirões do meu trabalho...

Karmem grunhiu tão alto que todos os pássaros da região se mudaram para nunca mais voltar.

- AAAAAAAAHHHHHHHHHH! Você consegue comprar um ingresso para mim?

- Dois, na verdade. Para nós. Eu vou junto, se você quiser.

- O quê? Ah, sim, não importa quem vá. Posso até aturar sair com você, mas me traz esse ingresso.

- Pode deixar que na segunda eu levo.

- Que segunda? Eu quero agora! Vá já, antes que acabe.

- Mas hoje é sábado, a gente está aqui namorando... Nem sei se já estão vendendo, tão antecipado assim...

- E se você quiser que algum outro sábado eu ainda seja sua namorada, vá buscar agora o meu ingresso, que eu prefiro perder você a perder a Marília!

O pior é que eu sabia que Karmem não estava brincando.

Rumei à casa de espetáculos, meio contrariado, mas sabendo que todo o futuro da relação podia depender disso. “O que tem de mais, aliás? Eu vou lá, é perto mesmo, compro os ingressos e volto. Karmem vai assistir à Marília cantando e vamos ficar namorando de mãos dadas, curtindo a música e ela vai perceber que eu sou o amor de sua vida. Nada mais simples”.

Era um desejo, não um pensamento. Nada da vida com Karmem era simples. A presença de Karmem atrapalhava até o mais corriqueiro dos atos. Como amarrar os cadarços. Sempre um ficava muito mais comprido que o outro.

Primeira tentativa - sábado, 16 de junho.

Cheguei à bilheteria, que não tinha fila. Com R$ 50,00 para os ingressos. Íamos aproveitar para pagar metade com nossas carteirinhas de estudante.

- Pois não senhor. - disse a bilheteira, com um sorriso forçado e claramente pedindo forças ao Senhor para aturar mais um dia de gente chata e sem paciência para escolher os lugares.

- Eu queria dois ingressos de meia entrada para o xou da Marília Bonde.

- Ainda não estão à venda, senhor.

E apontou para o cartaz que informava: ingressos para Marília Bonde a partir de 18 de junho.

- Dá para reservar?

E a moça apontou para o cartaz ao lado, que dizia: “não fazemos reservas”

- E se eu deixar pago?

O dedo indicador apontava a frase, logo abaixo: “Nem com pagamento adiantado”.

Cartazes foram feitos para que as pessoas não tenham que repetir as respostas para as mesmas perguntas mas, no fim, são usados para dizer “além de chato, você não presta atenção. Já está escrito ali que isso, isso e aquilo.”

- Karmem, os ingressos ainda não estão à venda. Na segunda eu passo aqui e compro na hora do almoço.

- Eu sabia que nem para isso você prestava. Mas tudo bem. Como eu já contava que você não ia conseguir, falei com a vizinha aqui da frente, que pediu para você comprar ingresso para ela e o namorado também. Porque o namorado dela tem um emprego de verdade e não pode se dar ao luxo de ficar saindo na hora do almoço para ir comprar nada para ela. Ao contrário de você. Vamos ver se pelo menos isso você consegue, não é mesmo?

- Tá bom, Ká. Mas não vamos discutir por celular. Daqui a pouco eu chego aí.

- É, vai chegar e sem os ingressos que prometeu. Mas tudo bem, porque para sua sorte eu sou uma mulher muito compreensiva e já sei que você não tem capacidade para muita coisa. Ah, no caminho, pode passar no supermercado? Acabaram algumas coisinhas aqui. Vai anotando...

E lá veio uma lista com aproximadamente 40 itens, entre alimentos e produtos de higiene pessoal, incluindo absorventes.

Segunda tentativa - segunda-feira, 18 de junho.

No fim, a vizinha de Karmem também tinha um outro casal de amigos que queria assistir ao xou e lá fui eu com R$ 250,00 comprar os seis ingressos. Duas meias entradas e quatro inteiras.

“Bom, hoje eu resolvo” foi o meu pensamento. Que se alterou quando, cinco quarteirões antes de chegar, vi a fila. “Não pode ser. Deve ser para outra coisa”. E usei a expressão mais apreciada pelos paulistanos:

- Essa fila é para quê?

- Você não sabe? Para o xou da Marília Bonde! O último CD dela está tocando sem parar no rádio!

“Maldita promoção de artistas!”. Mas peguei a fila. Quase três horas depois, quando faltavam apenas oito pessoas na minha frente e eu já havia desistido da idéia de ainda almoçar de verdade e já havia comido um pastel da barraca em frente, vi um sinal que mais parecia um aviso divino do que um papelão impresso: “Esgotado”.

A revolta na fila foi geral. Corri em frente à bilheteria e ainda consegui falar com a vendedora:

- Mas esgotado, como? São cinco semanas em cartaz, com quatro apresentações por semana! Não pode ser!

- Senhor, estávamos vendendo apenas para a primeira semana. Os bilhetes para a segunda semana vão começar a ser vendidos na quinta-feira.

Disquei os números no celular já imaginando qual seria a reação. Iríamos perder a estréia, mas não o xou.

- Ká, você não vai acreditar, mas os ingresso esgotaram quando só faltavam oito pessoas na minha frente, acredita?

- Acredito, acredito sim. O que eu não acredito é que você é tão incompetente assim. Nem para isso você serve mesmo. Mas pode deixar. Vou ver se eu arrumo um homem capaz de uma coisa tão simples como comprar o ingresso de um xou para mim.

- Calma, Karmem. Na quinta-feira, eles começam a vender os ingressos para a segunda semana e eu compro para você.

- E você acha que eu confio em você? Eu mesma vou comprar esses ingressos, pode deixar.

Dali por diante, a cada dia que passava Karmem arrumava em média um casal de amigos que também queria ir ao xou. Na quinta, tínhamos R$ 650 para comprar os ingressos. Combinamos que Karmem passaria no meu serviço e iríamos juntos comprá-los.

Terceira tentativa - quinta-feira, 21 de junho.

- Dá para você descer logo ou vai esperar os ingressos acabarem de novo?

Era assim, sem nem mesmo dizer alô, que Karmem me chamava pelo celular.

- Já estou indo, coração.

- E ainda por cima, eu namoro um pobre, que nem carro tem e vai me fazer andar até lá!

Karmem só andava sem reclamar por ruas onde houvesse um número razoável de lojas. Qualquer quarteirão sem vitrines a deixava com muitas dores pelos pés, coxas e até nas costas.

- Falta muito?

- Eu não falei que são oito quarteirões? Ainda não saímos do primeiro...

- Meus pés já estão doendo...

Pelo menos, não nos distraímos e conseguimos chegar com uma média boa de tempo. A tempo, aliás, de ver vários pedreiros, caminhões e sacos e sacos de cimento e material de construção em frente à casa.

- O que está acontecendo?

- Ah, Karmem, lembra que esse xou é de reinauguração do Opera House of Concert? Então, eles estão reformando... Eu vou levar você numa casa de espetáculos novinha...

- Assim espero.

Parecia até que ela previa o que estava prestes a acontecer. A bilheteria, por exemplo, fechada por causa da reforma. Uma plaquinha, mas dessa vez sem nenhum dedinho apontando-a, dizia “ingressos à venda nas lojas Pag Mais no shopping Tal, rua Tal, número tal”. Exatamente a dois quarteirões do meu serviço. Para o outro lado. Somados aos oito que havíamos acabado de andar e teríamos que voltar, seriam dezoito no total.

Mas Karmem merecia o esforço. Em seus olhos, aliás, a expressão de fúria silenciosa era a que mais me amedrontava. A explosiva geralmente passava com um presente, mas a silenciosa levava dias e várias transações com o cartão de crédito para curar.

Voltamos mudos, passamos em frente ao ponto de partida, o escritório do meu trabalho, e seguimos para o shopping. Foi a primeira (e, aliás, a única) vez em que, no interior de um shopping, rumamos direto para uma loja específica, sem olhar para os lados. Pelo menos, teríamos nossos ingressos.

Pegamos a fila para uma simpática atendente que vendia os ingressos com uma camiseta do xou. Para mostrar que existiam pessoas que conseguiriam assisti-lo e que você poderia ser uma delas. Se... Não fôssemos comprar os ingressos de estudante.

- Desculpe, mas as meias-entradas só são vendidos nas bilheterias oficiais, não aqui no quiosque de vendas.

- Mas a bilheteria oficial está fechada por causa da reforma.

- Sim, a da Opera House of Concert está fechada, mas da The Show Must Go On, não. É do mesmo grupo e os ingressos estão sendo vendidos lá.

- Deixou Mastigou? O que é isso, um restaurante canibal?E onde raios fica isso?

- Ah, pertinho daqui. Logo ali na estrada de Itapecerica.

- Eu sei onde fica, Karmem. É a The Show Must Go On. Mas é meio perigoso para ir agora...

Em sua casa, Karmem maldizia todos os antepassados da bilheteira, do dono das casas Opera House of Concert e The Show Must Go On. Foi quando sua mãe comentou:

- Deixou Mastigou? Eu vou passar na frente amanhã.

Quarta tentativa - sexta-feira, 22 de junho.

Ficou acertado que a mãe de Karmem compraria os ingressos, para que Karmem pudesse me dizer “se não fosse a mamãe, eu nunca veria a Marília de perto” pelo resto de minha vida.

À noite, Karmem me recebeu com o olhar de triunfo. Sua mãe já ligara da rua e havia comprado os ingressos.

- Aqui estão. Nem tinha fila nem nada.

E jogou os ingressos em cima da mesa.

- Podem ir se arrumando, que eu levo vocês lá.

- Como, mamãe? Mas o xou é só em agosto...

- Agosto? Está louca, menina? Vai botando uma roupinha mais arrumada logo, senão vocês vão perder. Os seus amigos vão se encontrar lá com vocês?

- Mãe, deixe-me ver esses ingressos.

E lá estavam os tão cobiçados ingressos. Para o xou do Zuzu Souza.

- Zuzu Souza, mãe? Zuzu Souza?

- Não precisa agradecer. É mínimo o sacrifício que faço por qualquer das minhas filhas.

Se havia um cantor que Karmem odiava, era o Zuzu Souza. Antes, sem motivo. Agora, com motivo.

Depois do ataque de nervos e do choro rompente, Karmem se acalmou e começou a gargalhar histericamente. Sua mãe nem ouviu quando ela disse que era xou da Marília Bonde. Foi lá e comprou qualquer ingresso. Gastou os R$ 750 (além das nossas meias-entradas, da vizinha e dos casais amigos, era preciso comprar para mais duas colegas de trabalho de Karmem).

Agora estava nas minhas mãos, além de conseguir entrar no xou da Marília, convencer a casa a aceitar as entradas para o Zuzu de volta.

Quinta-tentativa - sábado, 23 de junho.

Meu bolso crescia a cada dia. Já eram mais de mil reais, pois, depois do episódio do Zuzu, a mãe de Karmem decidira ir junto ao xou, levando toda a família. Como Karmem não confiava em mais ninguém, foi comigo até a The Show. Realmente, quase não havia filas. Isso talvez porque fosse necessário pegar três conduções, passar uma avenida de barro, cortar cipós e até pegar uma balsa para chegar ao local. A mãe de Karmem prestava tão pouca atenção ao trânsito que nem percebia nada disso cada vez que tinha de ir para lá.

Enfim chegara a hora de comprar nossas entradas.

- Pois não? É para o xou do Zuzu de hoje à noite?

- Calma, Karmem. Ela não perguntou de propósito. Nós queremos entradas para o xou da Marília, em agosto. Da segunda semana.

- Lamento, senhor, mas o xou será na Opera House of Concert.

- Nós sabemos, mas só queremos os ingressos.

- Bem, eles só estão disponíveis na Opera House. Cada casa, apesar de pertencer ao mesmo grupo, só vende ingressos para os próprios espetáculos.

- Mas a Opera House está em reforma e nos disseram para comprar aqui...

- É verdade, mas a reforma terminou ontem e, desde hoje de manhã, os ingressos voltaram a ser vendidos lá. Não temos mais permissão para vender nenhuma entrada para esse xou. Ah, as lojas Pag Mais têm quiosques que também estão vendendo.

Consegui vender os ingressos errados com 5% de desconto em relação ao preço original para algumas pessoas que iam comprar mesmo para o xou do Zuzu (o que nos custou exatamente o valor do desconto da meia entrada que teríamos para comprar as entradas de estudante) e corremos todo o caminho de volta para chegar à Opera House. Encontramos apenas fãs desolados, chorando na calçada. Os ingressos para a segunda semana haviam se esgotado.

- Moça, por favor, quando estarão disponíveis os ingressos da terceira semana?

- Não sabemos. Mas a nossa bilheteria funciona a partir das nove horas. O senhor pode vir aqui nesse horário e verificar.

Sexta tentativa - segunda-feira, 25 de junho.

Era junho, mas o inverno já dava suas caras. Às cinco da manhã, cheguei à bilheteria. Eu não podia perder a oportunidade de comprar os ingressos. Todos os quinze, àquela altura, pois Karmem fazia questão de divulgar aos colegas e amigos que tinha um namorado tão bem mandado que iria fazer aquele sacrifício de chegar na bilheteria de madrugada para conseguir os ingressos. Para minha surpresa, já havia cerca de cem pessoas, amontoando-se em fila. Às seis da matina, minhas orelhas começavam a congelar. Senti que uma delas caíra, mas não pude ter certeza, pois meus dedos já haviam perdido a sensibilidade e não conseguia tatear nada com eles. Três horas depois, o guichê abriu e de lá veio a notícia, em uma plaquinha: “Os ingressos para o xou da Marília Bonde, terceira semana de apresentações, ainda não estão disponíveis”.

Mas eu não desistiria tão fácil.

Sétima tentativa - terça-feira, 26 de junho.

Cheguei mais cedo dessa vez, às quatro horas. A fila era menor. Umas oitenta pessoas. Adormeci em pé (o que não foi difícil, pois minhas pernas estavam endurecidas pelo frio), para ver novamente a mesma plaquetinha do dia anterior. Tomei uma decisão que mudaria aquela história. Na hora do almoço, comprei um sobretudo de R$ 300. E botas forradas com pele de carneiro, um gorro que cobria as orelhas e luvas de couro, o que custou R$ 420. Aquele frio ia ver só. Ah se ia!

Oitava tentativa - quarta-feira, 27 de junho.

Sorri com superioridade quando cheguei, às três da manhã, e não vi mais ninguém. Sim, eu era o primeiro da fila hoje! E devidamente agasalhado. Dormi com o nariz colado no vidro e acordei com a chegada da bilheteira. Que sorriu para mostrar o aviso de ingressos não disponíveis.

- Karmem...

- Já sei. Você vai dizer que ainda não conseguiu. Tudo bem, porque o seu Abelardo, da contabilidade, também quer três ingressos.

Nona tentativa - quinta-feira, 28 de junho.

Meu raciocínio já não funcionava direito. Talvez por isso resolvi ligar para o serviço de informações da Opera House antes de sair de casa. Totalmente descrente de que iria haver alguma nova informação. Mas eis que ouço a gravação dizer: “Os ingressos para a terceira semana do xou I Love Meu Amor, de Marília Bonde, já estão disponíveis para venda nas bilheterias da Opera House of Concert”. Liguei mais uma vez para ter certeza e disparei até o local. Mal pude acreditar!

- Karmem, hoje vai! Acabei de ligar para lá e os ingressos vão começar a ser vendidos hoje!

- Hmmm. Brfgrmndtbv...

Antes das dez da manhã Karmem não conseguia raciocinar o suficiente para formular qualquer frase com sujeito e predicado. Antes das seis, nem sequer murmurar palavras sem sentido ela conseguia, por isso não encarei como falta de atenção em relação aos sacrifícios que fazia por ela, pois a ligação estava sendo feita às duas da matina.

Fui novamente o primeiro a chegar e fiquei a imaginar quais cadeiras eu iria escolher. “Mais para o meio, para ver melhor os efeitos do palco? Mais para a frente, para ver a Marília de perto? Mais para trás para namorar à vontade? Ora, que besteira, se fosse para ficar longe, porque eu teria todo este trabalho? Vou ficar tão perto do palco que, se a Marília espirrar, eu pego o resfriado dela e depois ainda leilôo pela Internet!”

Como era de se esperar, mesmo os maiores fãs chegaram apenas depois das cinco. A cada um que chegava, eu sorria com mais superioridade. Eu ia ser o primeiro. Eu escolheria qualquer lugar. Somente a mim seria dado o privilégio, merecido, aliás, de poder optar por qualquer um dos três mil lugares da casa. Eu era o rei naquele momento. E tudo porque não desistira de acordar às duas da madrugada e ficar aguardando em pé, pacientemente, pela minha vez.

Imaginem, então, todos os sentimentos que puderam passar pelo meu coração quando a bilheteria abriu e a moça, reconhecendo-me, foi logo avisando:

- Moço, os ingressos para a terceira semana já esgotaram.

O sorriso ficou petrificado em meu rosto, mas dessa vez não era por causa do frio. Era o susto. “Uma brincadeira! É claro, uma brincadeira! Vamos nos descontrair, ora bolas! ha, ha, ha!”. Mas não era.

- Como, esgotaram? Você acaba de abrir a bilheteria. Ontem, não estavam à venda. Eu sou o primeiro a chegar... Danadinha, quase me mata de susto...

- Senhor, nós começamos a vender ontem, às catorze horas. Eles acabaram por volta das dezoito.

- Você está querendo me dizer que ontem, assim como hoje, eu fiquei cinco horas esperando a bilheteria abrir para você me dizer que os ingressos não estavam à venda e começaram a vendê-los no meio do dia?

- Exatamente, senhor.

- E você não poderia ter me dito, ontem, que eles seriam vendidos a partir das catorze horas?

- Mas eu não sabia, senhor.

- E a que horas os ingressos geralmente são liberados para venda?

- Sempre às nove, quando a bilheteria abre. Mas ontem, pela primeira vez, nós liberamos às catorze. Parece que o gerente ficou com dó das pessoas que vinham até aqui e não encontravam o ingresso para vender...

Foi aí que entendi porque os vidros eram blindados nesses guichês.

- Karmem...

- Que lugares você escolheu? Porque se você foi burro de pegar um muito atrás...

- Não se preocupe, Karmem. Não consegui os ingressos.

Apesar de tudo, o que mais devo reconhecer em Karmem era sua capacidade de perceber meus sentimentos mais profundos. Os superficiais, não. Esses ela ignorava. Mas os mais profundos tinham prioridade.

- Pode deixar esse xou para lá. Não vale tanto sacrifício, meu amor.

- Ah, vale, sim! Nem que eu compre esses ingressos e nem venha para esse xou! Agora, é questão de honra! Senão, todo esse esforço vai ter sido em vão, concorda?

- Ai, que bom que você está falando assim! Mesmo porque a dona Julia, do RH, também quer levar o sobrinho dela! Vou lá pegar o dinheiro com ela!

Décima tentativa - sexta-feira, 29 de junho.

Resumindo: cheguei às três da madrugada e esperei até o guichê abrir.

- E aí?

A bilheteira só sacudiu a cabeça, negativamente. Virei as costas e fui embora. Pelo celular, disse:

- Karmem?

- Sim?

- Não.

- Tá...

Décima primeira tentativa - sábado, 30 de junho.

Aquele era um sábado e na semana inteira eu havia dormido apenas três horas por noite na minha cama. Resolvi me dar esse presente de dormir até às seis. Tomando o café da manhã, liguei para o serviço de informações do Opera House mais uma vez. Esperando não ter novidades. Mas, em vez de escutar à mesma gravação, a voz disse: “Os ingressos para a quarta semana do xou I Love Meu Amor, de Marília Bonde, estarão disponíveis nas bilheterias do Opera House of Concert hoje, sábado, 30 de junho, a partir das onze horas da manhã”.

Foi a primeira vez que saí de casa de pijama depois de ter ficado adulto. Pijama e tênis, uma combinação horrível. O ônibus não estava à vista, por isso pulei num táxi. O taxista me olhou meio estranho, mas, como me lembrei que ao lado da casa de espetáculos havia um hospital, não vacilei e disse, com voz firme:

- Leve-me ao hospital Santa Bárbara! Urgente! Meu pai teve um derrame e está sendo operado!

Era inegável o desespero estampado em mim. Até eu estava acreditando que era preciso aquela urgência toda. Fizemos em menos de vinte minutos o trajeto e o taxista ainda insistiu para que eu não pagasse, mas pude ver marcado R$ 30 no taxímetro e deixei o dinheiro com ele. Foi bom, pois ele me viu entrando na fila em vez de entrar no hospital e fez gestos obscenos com as mãos.

Sim, eu reconheço que naquele dia havia baixado a guarda. Tivesse eu chegado às três da madrugada e seria o primeiro. Mas tudo bem. Eram só cinco pessoas na minha frente. Nada poderia sair errado.

A bilheteria abriu às nove e nos fizeram formar uma segunda fila, para os ingressos que seriam vendidos às onze. Tudo perfeito.

- Você conseguiu dessa vez, hein?

- Para você ver... Ou você vai me dizer os cinco que estavam na minha frente compraram todos os lugares?

- Imagina! Vamos lá. Quantas o senhor vai querer?

- Trinta e sete. Duas meias-entradas e o resto inteiras.

E mostrei os R$ 3550,00, pois, pelo que eu havia entendido, havia também uma família de ciganos querendo ir ao xou e Karmem se comprometera com todos eles que eu compraria os ingressos. O sorriso desapareceu do rosto da bilheteira e tenho certeza de que a vi pressionar um botão embaixo da mesa.

- O senhor quer quantos?

- Trinta e sete?- falei, como se estivesse perguntando para mim mesmo o que havia de errado.

Foi quando senti duas mãos pesadas em meus ombros. Um segurança de cada lado.

- O senhor pode nos acompanhar, por gentileza?

Entrei em pânico. O que eles fariam comigo? Iam me dar um prêmio pela minha insistência, só podia ser.

- Mas o que está acontecendo?

Por cima dos óculos de lentes verdes, um deles me explicou:

- A casa tem uma política muito severa em relação a cambistas.

E esmagou uma noz com apenas uma mão, deixando só migalhas.

- Não, eu não sou cambista! É que eu tenho uma namorada...

Mas parei a explicação. Achei melhor mandar todos para o inferno. Afinal, se queriam tanto estar ali, teriam que merecer, como eu. Ou, como Karmem, ter um namorado que merecia.

- Olha, faça o seguinte. Pode me vender só duas meias e está bom.

- Assim é melhor. Onde o senhor quer?

Finalmente eu havia conseguido! Ali, de pijamas e tendo saído de casa sem escovar os dentes pela primeira vez na vida, eu havia comprado dois ingressos para o xou da Marília Bonde! Por um momento pensei até em vendê-los por três vezes o preço, mas não! A satisfação era tanta que eu precisava assistir a esse xou! Nem que fosse só para olhar para a Marília e dizer: “Ó só, tô aqui!”

- Karmem?

- Já sei. No mínimo você vai me dizer que eu vou ter mais uma vez que dizer a todos os meus amigos que o bundão do meu namorado não conseguiu os bilhetes...

E o pior é que seria isso mesmo. Aí compreendi a situação como um todo. Eu precisava de uma desculpa por não ter comprado para mais ninguém. Olhei para os dois pedaços de papel na minha mão. Os ingressos eram nominais. Sim, eles eram nominais!

- São nominais!

- O quê?

- Os ingressos são nominais, Karmem. Eu não pude comprar para mais ninguém, pois eles imprimem o nome completo e RG das pessoas. Eu só sabia os nossos, por isso não deu para comprar...

E era verdade, por melhor que fosse a desculpa.

- Se você quiser, anote todos os nomes em um papel e eu venho comprar depois...

- Ah, meu amorzinho, não faça esse sacrifício todo pelos meus amigos.

Antes de mais nada, voltei para casa e dormi o resto do dia. E sonhei o tempo todo com grandes concertos da história, todos ficando para trás e as platéias me olhando com inveja porque eu tinha os melhores lugares.

No saldo final, eu havia gasto mais ou menos, com todos os táxis de bandeira dois na madrugada, roupas para o frio e as conduções durante o dia R$ 629,50, se contarmos também as balinhas de menta que comprei no último dia, mas eu havia economizado R$ 65,00 do que se tivesse comprado pela Internet duas entradas inteiras.

Quase dois meses depois, fomos ao xou. Tudo correu muito bem. A Marília estava com a voz impecável e parecia até que sabia do que eu havia passado, pois vez e meia me fitava com um olhar acolhedor.

Na saída, perguntei a Karmem:

- E então? Gostou do xou?

- Ah, mais ou menos. Acho que não estou mais assim tão fã da Marília. Ela já esteve melhor. Você guardou aqueles ingressos para o Zuzu?

Mas o pior foi, na semana seguinte, ouvir um colega de trabalho comentar:

- Ontem eu fui no encerramento do xou da Marília Bonde.

- Poxa, eu não sabia que você era fã! Deve ter sido difícil conseguir os ingressos. Ainda mais para o encerramento, né?

E fiquei aguardando que ele contasse uma história muito parecida com a minha.

- Vejá só o que aconteceu. Ontem, no meio da tarde, tocou o telefone lá em casa e era de uma rádio. Se eu tivesse atendido dizendo “alô” teria perdido o prêmio, mas, como eu sempre digo “pronto” ganhei dois ingressos para o xou! Fui no camarote e ainda conheci a Marília depois no camarim. Ela até autografou um CD e me deu de presente. Ainda tiramos fotos e ela disse que vai publicá-las no seu site pessoal. Ué, mas que cara é essa?

- Nada. Você deve ter guardado bem esse CD...

- Ah, não. Eu dei para o porteiro. Não curto muito Marília, - e. sussurando - achei o xou um saco. Se eu soubesse de alguém que quisesse as entradas eu teria dado, mas ninguém me pediu...