Foi há vinte anos.
- Mãe, mãe! Eu quero uma bola!
- Nossa, filho, tem certeza? Você nunca gostou de esportes com bola...
- Sim, sim! Compra pra mim?
- Claro, pode ir buscar. Vou pegar o sabão em pó, me encontre lá, ok?
- Ai, obrigado, mãe!
Minutos depois, na sessão de detergentes.
- Olha que linda!
- Mas, filho, que bola vermelha é essa?
- É da Moranguinho.
- Mas vai ser péssima para chutar...
- E quem disse que é para chutar?
- É para jogar basquete então?
- Não, é que ela tem cheirinho de morango. Sente que delícia!
- Ai, Carlos Charles, não sei como ainda consigo me surpreender com você.
7 de mai. de 2009
6 de mai. de 2009
Poliglota
Carlos Charles sempre foi atento aos pequenos detalhes que revelavam nuâncias da personalidade e do estado de espírito dos amigos.
Quando viu que um de seus contatos tinha no nickname a farse 'Je suis foutou', não hesitou.
Usando todo seu conhecimento em francês, foi logo saudando.
Carlos Charles diz:
Resolveu virar crente a essa altura do campeonato e depois de tanta farra?
Je suis foutou diz:
Ãh?
Carlos Charles diz:
Acho digno, mas não tem salvação para sua alma, bem.
Je suis foutou diz:
Mas do que você está falando?
Carlos Charles diz:
Está aí, no seu nick. Jesus voltou?
Je suis foutou diz:
Não, viado. Isso quer dizer 'estou fudido'.
Carlos Charles diz:
Achei que fosse 'Jesus voltou', dito com a língua presa.
Quando viu que um de seus contatos tinha no nickname a farse 'Je suis foutou', não hesitou.
Usando todo seu conhecimento em francês, foi logo saudando.
Carlos Charles diz:
Resolveu virar crente a essa altura do campeonato e depois de tanta farra?
Je suis foutou diz:
Ãh?
Carlos Charles diz:
Acho digno, mas não tem salvação para sua alma, bem.
Je suis foutou diz:
Mas do que você está falando?
Carlos Charles diz:
Está aí, no seu nick. Jesus voltou?
Je suis foutou diz:
Não, viado. Isso quer dizer 'estou fudido'.
Carlos Charles diz:
Achei que fosse 'Jesus voltou', dito com a língua presa.
5 de mai. de 2009
Confuso horário
Tarefa simples.
Ligar para um fornecedor nos Estados Unidos para cobrar um orçamento.
Nem tive que usar o inglês. Fui atendido por uma simpática atendente, com leve sotaque português.
- Oi, aquele orçamento que solicitei ontem. Já está pronto?
- Bom dia, senhor. Não tenho como estar a passar ainda, pois o departamento financeiro está a calcular o desconto que o senhor pediu.
- E quando vamos ter o valor final?
- Só posso estar a dizer pro senhor depois de estar a falar com o financeiro.
- Você tem alguma previsão?
- O pessoal só vai estar a chegar às oito horas.
- Aqui no Brasil já são dez e meia. Que horas são aí agora?
- São oito e meia senhor.
- ...
Ligar para um fornecedor nos Estados Unidos para cobrar um orçamento.
Nem tive que usar o inglês. Fui atendido por uma simpática atendente, com leve sotaque português.
- Oi, aquele orçamento que solicitei ontem. Já está pronto?
- Bom dia, senhor. Não tenho como estar a passar ainda, pois o departamento financeiro está a calcular o desconto que o senhor pediu.
- E quando vamos ter o valor final?
- Só posso estar a dizer pro senhor depois de estar a falar com o financeiro.
- Você tem alguma previsão?
- O pessoal só vai estar a chegar às oito horas.
- Aqui no Brasil já são dez e meia. Que horas são aí agora?
- São oito e meia senhor.
- ...
4 de mai. de 2009
Ambiente adequado
Não é que eu seja contra a natureza. Pelo contrário, sou a favor da total preservação dela. Tanto que acredito que os humanos deveriam se manter o mais afastado possível de qualquer vestígio natural. Aproveitando o conselho de Luis Fernando Veríssimo, o mais próximo que chego perto da vida selvagem hoje é usar bermudas e, de preferência, longas.
Já Karmem era entusiasta dos passeios ao ar livre e no meio do matagal.
- Não é ótimo sentir a conexão com a mãe-natureza?
Por 'mãe-natureza', entenda mato, picada de insetos e total falta de saneamento.
- Karmem, aqui não é adequado para seres humanos.
- E por quê não? Sinta o ar puro entrando nos seus pulmões. Livre-se das preocupações da vida agitada e entre em sintonia com o cosmos, meu querido.
A única sintonia que entrava em mim nessas ocasiões eram os ferrões de insetos.
- Ah, como eu gostaria de morar no meio da selva!
- Longe de comida preparada com a higiene necessária, toaletes com assepsia adequada e proteção contra os animais, isso sem falar de malária, dengue e outras doenças?
- Isso.
Vai entender a mente de Karmem: seu maior desejo era abdicar dos perigos da vida moderna para levar um dia-a-dia recheado de contatos com as raízes.
Resumindo: ela preferiria, por exemplo, se arriscar a ser picada por uma naturalíssima cobra e estar a léguas de distância de qualquer hospital disponível para eliminar a possibilidade de ser envenenada aos poucos pelos corantes e conservantes da indústria de alimentos.
- Karmem, aqui não tem corrimão, aliás, não tem nem degraus. Tem certeza de que a trilha é aqui?
- Claro que tenho! Bom, está um pouco mais fechada do que de costume, mas, olha, vai abrindo o caminho com isso aqui.
E me entregou sua lixa de unhas.
- Quando a gente chegar na cachoeira você vai agradecer por eu ter pensado nesse passeio. A vista de lá compensa tudo!
Karmem ia cantarolando atrás de mim, com borboletas bailando alegremente sobre sua cabeça e pintassilgos entoando um canto de boas-vindas enquanto eu abria o caminho com a lixa de unha, por uma trilha cuja existência antes de nossa passagem por ali eu nunca pude comprovar.
Os espinhos das plantas arranhavam meu braço, meu rosto e minhas pernas, mas abria a via para que a namorada prosseguisse sem se machucar.
- Criatura, você tem certeza de que é para esse lado?
- Claro! Siga em frente, a cachoeira não pode estar longe.
- Eu não estou ouvindo barulho nenhum de água corrente.
- Ai, como você é surdo! Está para lá, eu estou até sentindo um frescorzinho vindo daí da frente.
- É do garrafão de água gelada que eu estou carregando dentro da mochila...
- Ah, é? Então segura mais para a direita, que está desnivelado.
Minha única proteção contra a artilharia aérea da natureza (leia-se: mosquitos, borrachudos, moriçocas, pernilongos, zangões e abelhas) era um incenso gigante de citronela. Comprei um de mais de meio metro de comprimento e ia balançando na minha frente, espantando tantos animais com a fumaça que o desequilíbrio ecológico nunca conseguiu se restabelecer.
Já Karmem era entusiasta dos passeios ao ar livre e no meio do matagal.
- Não é ótimo sentir a conexão com a mãe-natureza?
Por 'mãe-natureza', entenda mato, picada de insetos e total falta de saneamento.
- Karmem, aqui não é adequado para seres humanos.
- E por quê não? Sinta o ar puro entrando nos seus pulmões. Livre-se das preocupações da vida agitada e entre em sintonia com o cosmos, meu querido.
A única sintonia que entrava em mim nessas ocasiões eram os ferrões de insetos.
- Ah, como eu gostaria de morar no meio da selva!
- Longe de comida preparada com a higiene necessária, toaletes com assepsia adequada e proteção contra os animais, isso sem falar de malária, dengue e outras doenças?
- Isso.
Vai entender a mente de Karmem: seu maior desejo era abdicar dos perigos da vida moderna para levar um dia-a-dia recheado de contatos com as raízes.
Resumindo: ela preferiria, por exemplo, se arriscar a ser picada por uma naturalíssima cobra e estar a léguas de distância de qualquer hospital disponível para eliminar a possibilidade de ser envenenada aos poucos pelos corantes e conservantes da indústria de alimentos.
- Karmem, aqui não tem corrimão, aliás, não tem nem degraus. Tem certeza de que a trilha é aqui?
- Claro que tenho! Bom, está um pouco mais fechada do que de costume, mas, olha, vai abrindo o caminho com isso aqui.
E me entregou sua lixa de unhas.
- Quando a gente chegar na cachoeira você vai agradecer por eu ter pensado nesse passeio. A vista de lá compensa tudo!
Karmem ia cantarolando atrás de mim, com borboletas bailando alegremente sobre sua cabeça e pintassilgos entoando um canto de boas-vindas enquanto eu abria o caminho com a lixa de unha, por uma trilha cuja existência antes de nossa passagem por ali eu nunca pude comprovar.
Os espinhos das plantas arranhavam meu braço, meu rosto e minhas pernas, mas abria a via para que a namorada prosseguisse sem se machucar.
- Criatura, você tem certeza de que é para esse lado?
- Claro! Siga em frente, a cachoeira não pode estar longe.
- Eu não estou ouvindo barulho nenhum de água corrente.
- Ai, como você é surdo! Está para lá, eu estou até sentindo um frescorzinho vindo daí da frente.
- É do garrafão de água gelada que eu estou carregando dentro da mochila...
- Ah, é? Então segura mais para a direita, que está desnivelado.
Minha única proteção contra a artilharia aérea da natureza (leia-se: mosquitos, borrachudos, moriçocas, pernilongos, zangões e abelhas) era um incenso gigante de citronela. Comprei um de mais de meio metro de comprimento e ia balançando na minha frente, espantando tantos animais com a fumaça que o desequilíbrio ecológico nunca conseguiu se restabelecer.
27 de abr. de 2009
Comunicação
O mais prático de namorar Karmem era nossa facilidade com a comunicação.
- É simples. O ônibus vai pela avenida. De um lado tem o mar e do outro a cidade. Você vai ver um posto de combustível, que é oposto ao mar.
- É o posto Almar, Karmem?
- Isso. Aí, vai ver um mercadinho, que também é oposto ao mar.
- Dentro do posto?
- Hum, bem, sim. E vai ter também um chaveiro, oposto ao mar também.
- Gente, mas esse Almar é um conglomerado comercial praticamente.
- Que Almar?
- Ué, não é o dono do posto de gasolina, do mercadinho e do chaveiro?
- De onde você tirou isso, maluco?
- Você disse que o posto chama Almar.
- Almar?
- Sim. O posto Almar.
- Não é posto Almar, é OPOSTO AO MAR! Do lado oposto ao lado do mar. Presta mais atenção.
No fim da história, consegui chegar à praia certa. Mas no litoral errado.
- É simples. O ônibus vai pela avenida. De um lado tem o mar e do outro a cidade. Você vai ver um posto de combustível, que é oposto ao mar.
- É o posto Almar, Karmem?
- Isso. Aí, vai ver um mercadinho, que também é oposto ao mar.
- Dentro do posto?
- Hum, bem, sim. E vai ter também um chaveiro, oposto ao mar também.
- Gente, mas esse Almar é um conglomerado comercial praticamente.
- Que Almar?
- Ué, não é o dono do posto de gasolina, do mercadinho e do chaveiro?
- De onde você tirou isso, maluco?
- Você disse que o posto chama Almar.
- Almar?
- Sim. O posto Almar.
- Não é posto Almar, é OPOSTO AO MAR! Do lado oposto ao lado do mar. Presta mais atenção.
No fim da história, consegui chegar à praia certa. Mas no litoral errado.
15 de abr. de 2009
Limites
Carlos Charles aguentou até que razoavelmente bem.
Não falou nada sobre a mania de torcer seus mamilos do candidato a namorado.
Nem do cheiro de naftalina da roupa.
Muito menos das manchas de catchup no sofá, do uso indiscriminado do seu condicionador de leite de avelãs, dos riscos no DVD da Kylie Minogue, nem do espelho quebrado por um golpe de escova de cabelo mal manuseada.
Mas tudo tem um limite.
Começou no supermercado.
- Vamos levar sorvete, Carlos?
- Aham.
- Melhor napolitano, né? Assim, já vem três sabores em um.
- Não tem nenhum de napolitano aqui.
- Tem sim, olha ali.
- Aquele não é o verdadeiro.
- Como assim, verdadeiro?
- O real sorvete napolitano vem com os sabores de morango e chocolate intermediados por uma camada de sorvete de nata, não de creme.
- E qual a diferença?
- Faz toda a diferença, a começar pela cor. O sabor nata é mais clarinho e tem um sabor suave. Não tem essa baunilha gritando na minha língua.
- E baunilha grita?
Carlos Charles concordou em levar o tenebroso napolitano pirata com o sabor creme mesmo. Foi prontamente servido em casa pelo rapaz.
- Quer mais?
- Não, já está bom. Obrigado.
- Então vou guardar no freezer.
- O que você está fazendo?
- Ué, estou fechando a tampa do pote.
- Isso eu vi, mas você não percebe que está errado?
- Errado, como?
- Você está invertendo a tampa!
- Não estou, o lado de cima está para cima...
- O lado da tampa que cobria o morango está agora em cima do chocolate!
- E daí?
- Daí que vai deixar os resquícios de morango em cima do chocolate e vice-versa.
- Ai, qual o problema, Carlos?
- O problema é que eu gosto de ter cada um estimulando separadamente o meu paladar.
- Na barriga mistura tudo.
- Então da próxima vez você bate bife, arroz, salsicha e Qi-Suco junto com o sorvete no liquidificador e toma tudo de uma vez. Mas faz isso na sua casa, não na minha.
Tampa de napolitano invertida definitivamente era demais para Carlos Charles.
Não falou nada sobre a mania de torcer seus mamilos do candidato a namorado.
Nem do cheiro de naftalina da roupa.
Muito menos das manchas de catchup no sofá, do uso indiscriminado do seu condicionador de leite de avelãs, dos riscos no DVD da Kylie Minogue, nem do espelho quebrado por um golpe de escova de cabelo mal manuseada.
Mas tudo tem um limite.
Começou no supermercado.
- Vamos levar sorvete, Carlos?
- Aham.
- Melhor napolitano, né? Assim, já vem três sabores em um.
- Não tem nenhum de napolitano aqui.
- Tem sim, olha ali.
- Aquele não é o verdadeiro.
- Como assim, verdadeiro?
- O real sorvete napolitano vem com os sabores de morango e chocolate intermediados por uma camada de sorvete de nata, não de creme.
- E qual a diferença?
- Faz toda a diferença, a começar pela cor. O sabor nata é mais clarinho e tem um sabor suave. Não tem essa baunilha gritando na minha língua.
- E baunilha grita?
Carlos Charles concordou em levar o tenebroso napolitano pirata com o sabor creme mesmo. Foi prontamente servido em casa pelo rapaz.
- Quer mais?
- Não, já está bom. Obrigado.
- Então vou guardar no freezer.
- O que você está fazendo?
- Ué, estou fechando a tampa do pote.
- Isso eu vi, mas você não percebe que está errado?
- Errado, como?
- Você está invertendo a tampa!
- Não estou, o lado de cima está para cima...
- O lado da tampa que cobria o morango está agora em cima do chocolate!
- E daí?
- Daí que vai deixar os resquícios de morango em cima do chocolate e vice-versa.
- Ai, qual o problema, Carlos?
- O problema é que eu gosto de ter cada um estimulando separadamente o meu paladar.
- Na barriga mistura tudo.
- Então da próxima vez você bate bife, arroz, salsicha e Qi-Suco junto com o sorvete no liquidificador e toma tudo de uma vez. Mas faz isso na sua casa, não na minha.
Tampa de napolitano invertida definitivamente era demais para Carlos Charles.
8 de abr. de 2009
Penteados
Karmem não havia superado muito bem aquela fase da infância na qual as crianças costumam gostar de mostrar tudo que sai de seus corpos.
- Karmem, você quer mesmo que eu veja isso?
- Ah, tá tão bonitinho... Olha, tá com o cabelo do Zé Gotinha.
- Pra mim, tá com cara de cocô.
- Não fala assim dele!
- Você não quer que eu chame o cocô de cocô?
- Ele pode ficar traumatizado. Afinal, ele não tem consciência de que é feito de dejetos.
- Mereço isso?
- Vem ver logo! Já já eu dou a descarga e você vai perder.
- Exatamente o que eu estou esperando acontecer.
- Você vai desprezar essa família de cocôs que eu fiz?
- Família?
- Sim, olha, essa é a irmãzinha. Sei que é menina porque ela tem Maria Chiquinha do Zé Gotinha.
- Qual a diferença?
Karmem desenhou no ar:
====> Cabelo de Zé Gotinha.
<===> Maria Chiquinha de Zé Gotinha.
- E você acredita que haja um salão de beleza no seu intestino onde eles façam esses penteados?
- É assim mesmo. Por isso eles saem bonitinhos.
- Promete que se eu for olhar você dá a descarga logo?
- Não, mas prometo que se não for olhar agora vou guardar para você conferir mais tarde.
- Vamos lá, então...
- Karmem, você quer mesmo que eu veja isso?
- Ah, tá tão bonitinho... Olha, tá com o cabelo do Zé Gotinha.
- Pra mim, tá com cara de cocô.
- Não fala assim dele!
- Você não quer que eu chame o cocô de cocô?
- Ele pode ficar traumatizado. Afinal, ele não tem consciência de que é feito de dejetos.
- Mereço isso?
- Vem ver logo! Já já eu dou a descarga e você vai perder.
- Exatamente o que eu estou esperando acontecer.
- Você vai desprezar essa família de cocôs que eu fiz?
- Família?
- Sim, olha, essa é a irmãzinha. Sei que é menina porque ela tem Maria Chiquinha do Zé Gotinha.
- Qual a diferença?
Karmem desenhou no ar:
====> Cabelo de Zé Gotinha.
<===> Maria Chiquinha de Zé Gotinha.
- E você acredita que haja um salão de beleza no seu intestino onde eles façam esses penteados?
- É assim mesmo. Por isso eles saem bonitinhos.
- Promete que se eu for olhar você dá a descarga logo?
- Não, mas prometo que se não for olhar agora vou guardar para você conferir mais tarde.
- Vamos lá, então...
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