- Canta!
- Mas eu estou no meio do trabalho...
Não era um pedido, era uma ordem. O objetivo, claro, não era apreciar minhas (inexistentes) aptidões para a cantoria, mas me causar embaraço.
- Ah, vai, eu quero...
- Tenho que desligar.
- Você vai desligar na minha carinha?
- Não, é que tem uma ligação aqui para mim.
- E como você sabe?
- A menina da recepção está acenando para mim. Ai, pronto, ela anotou o recado.
- Então canta.
- Agora? Eu canto à noite, quando encontrar com você, pode ser?
- Não! à noite já vai ter passado minha vontade de te ouvir cantar. Tem que ser agora!
Ela tinha o poder de me fazer perder a noção do ridículo.
- E que música você quer?
- Você vai ter que adivinhar!
- Karmem, eu estou trabalhando, o escritório está cheio de pessoas me olhando nesse exato minuto - retruquei, baixinho.
- E daí? Só uma musiquinha, vai.
- Então fala qual você quer.
- Não vou falar e você tem que cantar a canção certa!
- Tá bom, vai aquela da 'Cabeça, ombro, perna e pé', pode ser?
- Pode!
- Cabeça, ombro, perna e pé...
- Tá muito baixo.
- Karmem, já estou passando a maior vergonha aqui.
- Então canta de uma vez com convicção para acabar logo.
- Cabeça, ombro, perna e pé, perna e pé!
- Aposto que você não está fazendo os gestos!
- Tem que fazer?
- Claro! Que graça que tem se você não fizer? Aliás, só deixei cantar essa música, que não foi a que eu escolhi, porque tem a coreografia.
- Tá, vamos lá. Cabeça...
- Você não está fazendo!
- Estou, sim!
- Não tá não!
- Ok, não estava. Mas vou fazer agora.
- E canta alto, que eu quero sentir animação.
- Cabeça, ombro, perna e pé, perna e pé!
- Não vale.
- Por que não vale?
- Você está sentado na cadeira, tem que ser de pé.
- Karmem...
- Tem que ser de pé!
Levantei e comecei:
- Cabeça, ombro, perna e pé, perna e pé! Cabeça, ombro, perna e pé, perna e pé! Olhos, orelhas, boca e nariz. Cabeça, ombro, perna e pé, perna e pé!
No escritório, todos me olhavam. Do outro lado da linha, Karmem ria histericamente.
- Não acredito que você fez isso!
- Ué, não foi o que você me pediu, Karmem?
- Foi, mas o que que vão pensar de você aí agora? Credo, como você é louco!
- Posso desligar agora?
- Aí, tá vendo, quer desligar na minha cara. Você não gosta de falar comigo.
- Gosto, sim, não diga isso.
- Então me canta a musiquinha de ficar feliz.
- Karmem?!?
- Vai, aquela. Você sabe qual. Porque eu fiquei tristinha de saber que você não gosta de falar comigo e preciso voltar a ser feliz.
- Mas eu adoro falar com você.
- Então me mostra!
Como não havia jeito mesmo, dei vazão à loucura:
- Para ser feliz é preciso ter, esse céu azul e a imensidão...
Karmem ria tanto que não pode continuar falando ao telefone.
- Deixa eu desligar, porque estou trabalhando. Meu serviço é sério, não podem me ver gargalhando como uma doida no telefone, né?
- Mas...
- Tchau!
17 de fev. de 2009
14 de jan. de 2009
Buço
Dizem que, não importa o que se faça, a primeira vez é sempre inesquecível. No caso de um namorado de Karmem, todas as vezes são inesquecíveis, mas a primeira é sempre a mais assustadora. Como a primeira vez em que guardei seu lugar numa fila, tarefa pela qual tornei-me responsável pois Karmem nunca chegava na hora, não importava há quantos meses o compromisso havia sido agendado.
O cabeleireiro, então, marcado na véspera, não poderia ser diferente. Cerca de meia-noite de sexta-feira recebo uma ligação apressada:
- Amanhã tenho hora marcada no cabeleireiro. Esteja lá às seis da manhã para guardar o meu lugar. E leve um par de óculos com nariz.
- Como? Que cabeleireiro?
Mas Karmem já havia desligado. Ela não se importava se eu tivesse ou não entendido a mensagem. Como sempre, corri uma lista mental dos possíveis locais onde Karmem estaria me enviando. Claro, só pode ser no cabeleireiro que fica na esquina de sua rua, onde já a busquei uma vez, quando ainda nem namorávamos. Por que diabos ela teria marcado para cortar o cabelo à essa hora? E por que ela iria querer que eu fosse até lá guardar lugar, se ela estava há poucos metros e eu há quilômetros do lugar? Nessa época eu ainda me perguntava e tentava encontrar um sentido nos pedidos malucos de Karmem. Levou quase dois meses para eu desistir.
Acordei no dia seguinte ainda de madrugada, peguei o par de óculos com nariz que havíamos comprado para usar na peça de teatro da faculdade, ainda sem saber o que faria com eles, e fui até lá.
Quando cheguei, não pude acreditar no que vi, mas eram cerca de cinqüenta mulheres em fila na porta do salão fechado. Liguei para Karmem do celular:
- Bom dia, minha querida. Já estou aqui.
- oeeoeaiaeahoa? eeiaoiaee!
Antes das sete horas Karmem não conseguia pronunciar nenhuma consoante.
- Por favor, me diz porque é que eu estou aqui e o que é para eu fazer!
Depois de um longo suspiro que fez até as árvores se curvarem em direção à sua casa, Karmem conseguiu dizer:
- Coloque o nariz e diga que você é Karmem, marcada para as dez horas.
- Dez horas? Colocar o nariz? Mas que loucura é essa?
- Se eu não chegar a essa hora, a cabeleireira passa alguém na minha frente, por isso finja que sou eu. Às dez eu acordo e vou até aí, trocar de lugar com você.
- Mas como? Você acha que ela não vai perceber que não é você?
- A Dirce tem uma catarata cavalar e não enxerga direito. Eu sempre troco de lugar com a minha mãe e minha irmã e ela faz o cabelo das três cobrando por uma só. É só pedir um cafezinho e, quando ela se vira para pegar, trocamos de lugar. Ela já cortou o cabelo de uma, fez alisamento no da outra e permanente na terceira no mesmo dia, cobrando por uma só! Eu visto os óculos com nariz e ela nem vai reparar.
Devia ser por isso que cada uma ficava com um lado do cabelo sem cortar, pensei.
- Bem, sua irmã, sua mãe e você são todas mulheres, têm mais ou menos a mesma altura, a voz parecida, mas eu acho que mesmo a Dirce vai perceber que eu não sou você!
- Vê se disfarça a voz e fala que precisa tirar o buço!
- Mas...
- Agora me deixa dormir, que afinal foi para isso que você veio, não foi?
E Karmem desligou, pois havia entendido que eu não precisava receber mais nenhum tipo de orientação. Fiquei por lá, lendo revistas da época que o Sarney ainda era presidente, até às dez da manhã e nada de Karmem aparecer. A cabeleireira realmente não desconfiou de nada e ainda me ofereceu chá de erva cidreira, pois achou que eu estava meio rouca.
- Karmem! Acorda, Karmem, já são onze horas e a Dirce acaba de chamar o seu nome!
- Onze horas? Como é que eu vou sair da cama assim tão cedo? Que absurdo! Você é mesmo um insensível, atrapalhando o meu soninho assim... Espera mais um pouco.
- Mas o que eu digo à Dirce?
- Ah, vai sentando na cadeira, que ela ainda vai contar da filha dela, do filho, dos netos. Dá tempo de eu tomar café e chegar aí.
- Então toma rapidinho...
Mas Karmem já havia desligado, mais uma vez. Ela estava certa. Ouvi durante mais de meia hora os relatos de doença na família, o filho que se formou em Medicina, o neto que havia caído e ralado o joelho e fui concordando e acenando com a cabeça.
- Mas você está tão quietinha hoje, Karmem! Geralmente fala tanto! É essa rouquidão, né, filha?
- Hã-hã.
- Quer que eu prepare um chazinho com açúcar queimado para ir tomando enquanto eu faço o seu cabelo?
- Hã-hã.
Foi aí que entendi porque as mulheres passam tanto tempo no salão de beleza.
- Karmem! Já passou meia hora! Cadê você?
- Ai, que chato que você é! Eu não falei que ia tomar café? O meu pai está me levando para tomar café no Trê-chic's Plaza! Não é demais? Ele está morrendo de ciúmes porque eu estou namorando e agora está me agradando de tudo que é jeito, só para mostrar o futuro que eu não terei se casar com um pé rapado como você.
- Levando você? Mas e a Dirce e eu esperando aqui?
- Ai, como você é preocupado! Vai ser rapidinho. Ele está me levando de carro e não de ônibus como você. Daqui a pouquinho eu chego aí.
- Karmem, você estava há menos de cinqüenta metros daqui e agora... Karmem?
Desligou justamente quando a Dirce voltou, dizendo que tinha acabado o açúcar e que iria comprar mais.
Agora eu tinha uma decisão a tomar. Ficar ali e mostrar a Karmem que, não importa o absurdo da situação, eu faria o que ela mandasse ou simplesmente ir embora dormir e deixar claro que eu não seria um marionete em suas mãos. Claro que fiquei.
- Karmem, já acabou o café? A Dirce já voltou e está fazendo o chá. E tem ainda umas cinco mulheres me olhando com uma cara muito estranha. Tenho certeza de que ouvi uma delas cochichar para a outra que eu estou guardando o lugar para outra pessoa.
- Larga de ser paranóico. Claro que o café já acabou.
- Ótimo, então você está vindo. Em quanto tempo você chega?
- Uns dois minutinhos.
- Perfeito! É o tempo do chá ficar pronto!
- Só vamos passar antes naquela pista de kart para eu dar umas voltas. Cada volta dura só uns segundos, não é?
- Andar de kart? Agora?
- O meu pai quer me levar, eu não posso fazer essa desfeita, né? Ainda mais que eu sei que você nunca me levaria para isso, pois nem de bicicleta você anda...
- Mas, Karmem! O que eu digo se a Dirce vier fazer o seu cabelo?
- Eu chego aí antes disso! E, se eu não chegar, diz para ela ir começando. Peça para ela lavar o meu cabelo. Ela vai estranhar, pois eu só lavo no verão e ainda é primavera, mas diga que eu achei um bichinho andando nele e por isso quero lavar. Ela nunca leva menos de cinco horas para lavar o meu cabelo.
- Claro, porque você tem na cabeça o equivalente a cabelo de vinte pessoas com sujeira acumulada em três estações, mas o meu cabelo é curto!
Karmem já não me ouvia mais e lá veio o chá de açúcar queimado.
- Então, o que vamos fazer hoje, menina?
- Eu queria lavar...
Tentei fazer uma voz esganiçada, como a de Karmem.
- Credo, essa garganta piorou! Agora você está com voz de garotinho afeminado! Mas vamos lá lavar esse cabelo! Finalmente você entendeu o que eu dizia que não é para lavar só uma vez por ano, hein?
E fui encaminhado a um tipo e equipamento de tortura que nos prende pela nuca.
"Pronto", pensei. "Agora ela vai ver que esse não é o cabelo da Karmem e eu estou ferrado". Mas o cabelo de Karmem não era lavado como os outros. A Dirce havia comprado um equipamento especial que projeta um jato de água com uma pressão cerca de cem vezes maior que a mangueira convencional para dar conta do trabalho. Afinal, lavar a cabeça das três mulheres da família exigia o esforço de pelo menos mais três ajudantes. Quase tive o couro cabeludo arrancado, mas pelo menos ganhei uma hora.
- Karmem, onde você está?
- Já estou chegando, não disse? Como você é impaciente!
- Você está vindo direto para cá?
- Claro que estou! Você acha que eu não sei os compromissos que eu mesma marquei?
- Ótimo!
- Nós só vamos ali comer alguma coisinha e eu chego aí em cinco minutinhos.
- Comer? Você vai comer?
- Claro! Já faz um tempão que eu tomei café! Você quer que eu morra de fome?
- Mas você marcou aqui às dez horas, já passa da uma...
- Eu sei, mas o meu pai quer me apresentar para uns amigos dele no almoço, para eu saber o que é um homem de verdade, bem sucedido e rico, e ver a besteira que vai ser ficar com um garoto sem ter onde cair morto como você. Não vai levar mais que uns cinco minutos.
- E o que eu digo à Dirce?
- Peça para começar pelo buço, que hoje eu não vou fazer mesmo.
- O que é buço, Karmem?
Descobri da pior maneira possível. Primeiro, senti um leve cheiro de mel aquecido no ar. Vi com horror uma espátula de madeira sendo trazida em minha direção. "O que será que vão fazer?", pensei. "Tomara que essa massa estranha não respingue em mim, parece quente demais". Ela foi logo atirada em meu rosto, bem no lugar do bigode, grudando ambos, o falso e o natural. Pulei e gritei tão alto que todas as outras mulheres que aguardavam sua vez de susto saíram todas correndo, enquanto eu derrubava tudo que via pela frente até chegar à torneira mais próxima, pois havia escorrido cera até na minha língua. Um grande erro.
- Karmem, querida, você está louca? Vai ser mais difícil ainda tirar isso daí frio.
Fiquei extremamente sorridente pelas três semanas seguintes pois, para retirar a cera resfriada a Dirce praticamente arrancou toda a pele que fica acima dos meus lábios. O que foi bom para Karmem, pois o processo levou mais de duas horas.
- Amem?
- Amém o quê?
- Amem, sô eo! Eo tô aqui eserando você chegar!
- Por que você está falando assim?
- Epos eo explico. Ocê zá tá egando?
- Claro! Olha, para tomar tempo da Dirce, peça para ela ir fazendo a sua virilha.
- Irilha? Izo eo se o que é!
- Brincadeira, querido. Eu já estou aqui, olha.
E Karmem me acenou do lado de fora.
- Finja naturalidade e venha até aqui fora, para eu colocar os óculos e trocarmos de lugar.
Mas lá vinha a Dirce.
- Irce, eo peciso azê sissi!
- Claro, o banheiro é ali no fundo, pode ir.
- As te que sê a inha asa!
- Por quê?
- Eo sô uito ímida...
Dirce gargalhou honestamente.
- Tímida? Eu nem duvido se você fizer isso lá na rua!
- Em azão! Vou azer no oste esmo!
- Essa menina... Está mais alta, vocês não acham?
Dirce perguntou às samambaias, as únicas que havia ficado ali depois do meu chilique.
- E vocês, estão tão caladinhas hoje! Vamos fazer uma chapinha depois nesses cachinhos?
E saí em disparada, encontrando Karmem na rua. Karmem vestiu a capa rapidinho e "voltou" ao salão com os óculos e o nariz recém-depilado. Ela sabia muito bem como fingir que estivera ali o tempo todo.
- Dirce! Que saudade! Como está você? E os seus filhos? E o netinho?
- Ih, menina, nem te conto! Cada vez mais fortes! Mas você sarou da rouquidão? Tá vendo como o meu chazinho é bom?
Para meu espanto, Dirce a recebeu como alguém que de fato não estivesse ali o dia todo. Parece que ela fazia como os cães, que cumprimentam as pessoas ainda que só tenha retornado para pegar as chaves.
- Olha, esse é o meu namorado. Ele vai ficar ali esperando enquanto você termina o meu cabelo, pode ser?
- Só se você não tiver ciúmes dele sentar ali perto das meninas! Elas têm o cabelo cacheado como o seu, parece que ele gosta, né? Aliás, eu estava para dizer isso o dia todo, mas como o seu nariz cresceu! Não deve ser só garganta, você deve estar gripada.
E Dirce sorriu, enquanto eu me ajeitava entre as samambaias para passar mais cinco horas aguardando que o cabelo de Karmem ficasse pronto. O que eu não desconfiava é que aquela cena de sábado ainda se repetiria muitas vezes. Hoje eu me pergunto se eu teria desistido se soubesse disso. Provavelmente não.
O cabeleireiro, então, marcado na véspera, não poderia ser diferente. Cerca de meia-noite de sexta-feira recebo uma ligação apressada:
- Amanhã tenho hora marcada no cabeleireiro. Esteja lá às seis da manhã para guardar o meu lugar. E leve um par de óculos com nariz.
- Como? Que cabeleireiro?
Mas Karmem já havia desligado. Ela não se importava se eu tivesse ou não entendido a mensagem. Como sempre, corri uma lista mental dos possíveis locais onde Karmem estaria me enviando. Claro, só pode ser no cabeleireiro que fica na esquina de sua rua, onde já a busquei uma vez, quando ainda nem namorávamos. Por que diabos ela teria marcado para cortar o cabelo à essa hora? E por que ela iria querer que eu fosse até lá guardar lugar, se ela estava há poucos metros e eu há quilômetros do lugar? Nessa época eu ainda me perguntava e tentava encontrar um sentido nos pedidos malucos de Karmem. Levou quase dois meses para eu desistir.
Acordei no dia seguinte ainda de madrugada, peguei o par de óculos com nariz que havíamos comprado para usar na peça de teatro da faculdade, ainda sem saber o que faria com eles, e fui até lá.
Quando cheguei, não pude acreditar no que vi, mas eram cerca de cinqüenta mulheres em fila na porta do salão fechado. Liguei para Karmem do celular:
- Bom dia, minha querida. Já estou aqui.
- oeeoeaiaeahoa? eeiaoiaee!
Antes das sete horas Karmem não conseguia pronunciar nenhuma consoante.
- Por favor, me diz porque é que eu estou aqui e o que é para eu fazer!
Depois de um longo suspiro que fez até as árvores se curvarem em direção à sua casa, Karmem conseguiu dizer:
- Coloque o nariz e diga que você é Karmem, marcada para as dez horas.
- Dez horas? Colocar o nariz? Mas que loucura é essa?
- Se eu não chegar a essa hora, a cabeleireira passa alguém na minha frente, por isso finja que sou eu. Às dez eu acordo e vou até aí, trocar de lugar com você.
- Mas como? Você acha que ela não vai perceber que não é você?
- A Dirce tem uma catarata cavalar e não enxerga direito. Eu sempre troco de lugar com a minha mãe e minha irmã e ela faz o cabelo das três cobrando por uma só. É só pedir um cafezinho e, quando ela se vira para pegar, trocamos de lugar. Ela já cortou o cabelo de uma, fez alisamento no da outra e permanente na terceira no mesmo dia, cobrando por uma só! Eu visto os óculos com nariz e ela nem vai reparar.
Devia ser por isso que cada uma ficava com um lado do cabelo sem cortar, pensei.
- Bem, sua irmã, sua mãe e você são todas mulheres, têm mais ou menos a mesma altura, a voz parecida, mas eu acho que mesmo a Dirce vai perceber que eu não sou você!
- Vê se disfarça a voz e fala que precisa tirar o buço!
- Mas...
- Agora me deixa dormir, que afinal foi para isso que você veio, não foi?
E Karmem desligou, pois havia entendido que eu não precisava receber mais nenhum tipo de orientação. Fiquei por lá, lendo revistas da época que o Sarney ainda era presidente, até às dez da manhã e nada de Karmem aparecer. A cabeleireira realmente não desconfiou de nada e ainda me ofereceu chá de erva cidreira, pois achou que eu estava meio rouca.
- Karmem! Acorda, Karmem, já são onze horas e a Dirce acaba de chamar o seu nome!
- Onze horas? Como é que eu vou sair da cama assim tão cedo? Que absurdo! Você é mesmo um insensível, atrapalhando o meu soninho assim... Espera mais um pouco.
- Mas o que eu digo à Dirce?
- Ah, vai sentando na cadeira, que ela ainda vai contar da filha dela, do filho, dos netos. Dá tempo de eu tomar café e chegar aí.
- Então toma rapidinho...
Mas Karmem já havia desligado, mais uma vez. Ela estava certa. Ouvi durante mais de meia hora os relatos de doença na família, o filho que se formou em Medicina, o neto que havia caído e ralado o joelho e fui concordando e acenando com a cabeça.
- Mas você está tão quietinha hoje, Karmem! Geralmente fala tanto! É essa rouquidão, né, filha?
- Hã-hã.
- Quer que eu prepare um chazinho com açúcar queimado para ir tomando enquanto eu faço o seu cabelo?
- Hã-hã.
Foi aí que entendi porque as mulheres passam tanto tempo no salão de beleza.
- Karmem! Já passou meia hora! Cadê você?
- Ai, que chato que você é! Eu não falei que ia tomar café? O meu pai está me levando para tomar café no Trê-chic's Plaza! Não é demais? Ele está morrendo de ciúmes porque eu estou namorando e agora está me agradando de tudo que é jeito, só para mostrar o futuro que eu não terei se casar com um pé rapado como você.
- Levando você? Mas e a Dirce e eu esperando aqui?
- Ai, como você é preocupado! Vai ser rapidinho. Ele está me levando de carro e não de ônibus como você. Daqui a pouquinho eu chego aí.
- Karmem, você estava há menos de cinqüenta metros daqui e agora... Karmem?
Desligou justamente quando a Dirce voltou, dizendo que tinha acabado o açúcar e que iria comprar mais.
Agora eu tinha uma decisão a tomar. Ficar ali e mostrar a Karmem que, não importa o absurdo da situação, eu faria o que ela mandasse ou simplesmente ir embora dormir e deixar claro que eu não seria um marionete em suas mãos. Claro que fiquei.
- Karmem, já acabou o café? A Dirce já voltou e está fazendo o chá. E tem ainda umas cinco mulheres me olhando com uma cara muito estranha. Tenho certeza de que ouvi uma delas cochichar para a outra que eu estou guardando o lugar para outra pessoa.
- Larga de ser paranóico. Claro que o café já acabou.
- Ótimo, então você está vindo. Em quanto tempo você chega?
- Uns dois minutinhos.
- Perfeito! É o tempo do chá ficar pronto!
- Só vamos passar antes naquela pista de kart para eu dar umas voltas. Cada volta dura só uns segundos, não é?
- Andar de kart? Agora?
- O meu pai quer me levar, eu não posso fazer essa desfeita, né? Ainda mais que eu sei que você nunca me levaria para isso, pois nem de bicicleta você anda...
- Mas, Karmem! O que eu digo se a Dirce vier fazer o seu cabelo?
- Eu chego aí antes disso! E, se eu não chegar, diz para ela ir começando. Peça para ela lavar o meu cabelo. Ela vai estranhar, pois eu só lavo no verão e ainda é primavera, mas diga que eu achei um bichinho andando nele e por isso quero lavar. Ela nunca leva menos de cinco horas para lavar o meu cabelo.
- Claro, porque você tem na cabeça o equivalente a cabelo de vinte pessoas com sujeira acumulada em três estações, mas o meu cabelo é curto!
Karmem já não me ouvia mais e lá veio o chá de açúcar queimado.
- Então, o que vamos fazer hoje, menina?
- Eu queria lavar...
Tentei fazer uma voz esganiçada, como a de Karmem.
- Credo, essa garganta piorou! Agora você está com voz de garotinho afeminado! Mas vamos lá lavar esse cabelo! Finalmente você entendeu o que eu dizia que não é para lavar só uma vez por ano, hein?
E fui encaminhado a um tipo e equipamento de tortura que nos prende pela nuca.
"Pronto", pensei. "Agora ela vai ver que esse não é o cabelo da Karmem e eu estou ferrado". Mas o cabelo de Karmem não era lavado como os outros. A Dirce havia comprado um equipamento especial que projeta um jato de água com uma pressão cerca de cem vezes maior que a mangueira convencional para dar conta do trabalho. Afinal, lavar a cabeça das três mulheres da família exigia o esforço de pelo menos mais três ajudantes. Quase tive o couro cabeludo arrancado, mas pelo menos ganhei uma hora.
- Karmem, onde você está?
- Já estou chegando, não disse? Como você é impaciente!
- Você está vindo direto para cá?
- Claro que estou! Você acha que eu não sei os compromissos que eu mesma marquei?
- Ótimo!
- Nós só vamos ali comer alguma coisinha e eu chego aí em cinco minutinhos.
- Comer? Você vai comer?
- Claro! Já faz um tempão que eu tomei café! Você quer que eu morra de fome?
- Mas você marcou aqui às dez horas, já passa da uma...
- Eu sei, mas o meu pai quer me apresentar para uns amigos dele no almoço, para eu saber o que é um homem de verdade, bem sucedido e rico, e ver a besteira que vai ser ficar com um garoto sem ter onde cair morto como você. Não vai levar mais que uns cinco minutos.
- E o que eu digo à Dirce?
- Peça para começar pelo buço, que hoje eu não vou fazer mesmo.
- O que é buço, Karmem?
Descobri da pior maneira possível. Primeiro, senti um leve cheiro de mel aquecido no ar. Vi com horror uma espátula de madeira sendo trazida em minha direção. "O que será que vão fazer?", pensei. "Tomara que essa massa estranha não respingue em mim, parece quente demais". Ela foi logo atirada em meu rosto, bem no lugar do bigode, grudando ambos, o falso e o natural. Pulei e gritei tão alto que todas as outras mulheres que aguardavam sua vez de susto saíram todas correndo, enquanto eu derrubava tudo que via pela frente até chegar à torneira mais próxima, pois havia escorrido cera até na minha língua. Um grande erro.
- Karmem, querida, você está louca? Vai ser mais difícil ainda tirar isso daí frio.
Fiquei extremamente sorridente pelas três semanas seguintes pois, para retirar a cera resfriada a Dirce praticamente arrancou toda a pele que fica acima dos meus lábios. O que foi bom para Karmem, pois o processo levou mais de duas horas.
- Amem?
- Amém o quê?
- Amem, sô eo! Eo tô aqui eserando você chegar!
- Por que você está falando assim?
- Epos eo explico. Ocê zá tá egando?
- Claro! Olha, para tomar tempo da Dirce, peça para ela ir fazendo a sua virilha.
- Irilha? Izo eo se o que é!
- Brincadeira, querido. Eu já estou aqui, olha.
E Karmem me acenou do lado de fora.
- Finja naturalidade e venha até aqui fora, para eu colocar os óculos e trocarmos de lugar.
Mas lá vinha a Dirce.
- Irce, eo peciso azê sissi!
- Claro, o banheiro é ali no fundo, pode ir.
- As te que sê a inha asa!
- Por quê?
- Eo sô uito ímida...
Dirce gargalhou honestamente.
- Tímida? Eu nem duvido se você fizer isso lá na rua!
- Em azão! Vou azer no oste esmo!
- Essa menina... Está mais alta, vocês não acham?
Dirce perguntou às samambaias, as únicas que havia ficado ali depois do meu chilique.
- E vocês, estão tão caladinhas hoje! Vamos fazer uma chapinha depois nesses cachinhos?
E saí em disparada, encontrando Karmem na rua. Karmem vestiu a capa rapidinho e "voltou" ao salão com os óculos e o nariz recém-depilado. Ela sabia muito bem como fingir que estivera ali o tempo todo.
- Dirce! Que saudade! Como está você? E os seus filhos? E o netinho?
- Ih, menina, nem te conto! Cada vez mais fortes! Mas você sarou da rouquidão? Tá vendo como o meu chazinho é bom?
Para meu espanto, Dirce a recebeu como alguém que de fato não estivesse ali o dia todo. Parece que ela fazia como os cães, que cumprimentam as pessoas ainda que só tenha retornado para pegar as chaves.
- Olha, esse é o meu namorado. Ele vai ficar ali esperando enquanto você termina o meu cabelo, pode ser?
- Só se você não tiver ciúmes dele sentar ali perto das meninas! Elas têm o cabelo cacheado como o seu, parece que ele gosta, né? Aliás, eu estava para dizer isso o dia todo, mas como o seu nariz cresceu! Não deve ser só garganta, você deve estar gripada.
E Dirce sorriu, enquanto eu me ajeitava entre as samambaias para passar mais cinco horas aguardando que o cabelo de Karmem ficasse pronto. O que eu não desconfiava é que aquela cena de sábado ainda se repetiria muitas vezes. Hoje eu me pergunto se eu teria desistido se soubesse disso. Provavelmente não.
17 de dez. de 2008
9 de dez. de 2008
Arma secreta
‘Tanto faz’ era a arma secreta da Tânia. Palavras simples, mas que implicavam em tornar qualquer outra decisão que não a dela um absurdo.
- Onde você quer almoçar?
- Ah, tanto faz.
- Então pode ser no restaurante japonês?
- Não, já que tanto faz, vamos no italiano.
- Mas você mesma disse que tanto faz...
- Sim, então, para que ir no japonês? Tanto faz.
E lá se ia um almoço no restaurante italiano.
Assim como todo o resto.
Com o ‘tanto faz’ acionado, qualquer opinião contrária era automaticamente anulada.
- Eu estou a fim de assistir uma comédia. E você?
- Tanto faz. Vamos ver um de suspense então.
- Mas se tanto faz para você, por que não podemos ver a comédia então?
- Credo, como você é neurótico e intransigente!
E entravam na fila do suspense.
Nem ela mesma se dava conta às vezes, é verdade.
- Essa sua apresentação, Tânia, vamos fazer algumas alterações antes de passar pro cliente, ok?
- Tanto faz, como você preferir.
- Bom, acho que precisamos incluir alguns gráficos...
- Sim, tanto faz, então vou deixar assim mesmo.
- Mas é importante incluir essas informações...
- Tanto faz.
E a apresentação não era mais mexida até a reunião. O ‘tanto faz’ desarma qualquer um.
- Você acha que devo levar qual das duas calças?
- Tanto faz, ambas são lindas. Leva a lilás.
- Mas eu gostei mais da vermelha...
- Ai, tanto faz. Por que não levar a lilás, então?
- Ué, se tanto faz, então por que não levar a vermelha, já que gostei mais?
- Nossa, não está mais aqui quem falou! As pessoas são tão estressadas por motivos pequenos...
E quem se importava em se livrar de um de seus ‘tanto faz’ sem parecer uma pessoa obsessiva, recebia sempre a mesma resposta:
- Tanto faz.
- Onde você quer almoçar?
- Ah, tanto faz.
- Então pode ser no restaurante japonês?
- Não, já que tanto faz, vamos no italiano.
- Mas você mesma disse que tanto faz...
- Sim, então, para que ir no japonês? Tanto faz.
E lá se ia um almoço no restaurante italiano.
Assim como todo o resto.
Com o ‘tanto faz’ acionado, qualquer opinião contrária era automaticamente anulada.
- Eu estou a fim de assistir uma comédia. E você?
- Tanto faz. Vamos ver um de suspense então.
- Mas se tanto faz para você, por que não podemos ver a comédia então?
- Credo, como você é neurótico e intransigente!
E entravam na fila do suspense.
Nem ela mesma se dava conta às vezes, é verdade.
- Essa sua apresentação, Tânia, vamos fazer algumas alterações antes de passar pro cliente, ok?
- Tanto faz, como você preferir.
- Bom, acho que precisamos incluir alguns gráficos...
- Sim, tanto faz, então vou deixar assim mesmo.
- Mas é importante incluir essas informações...
- Tanto faz.
E a apresentação não era mais mexida até a reunião. O ‘tanto faz’ desarma qualquer um.
- Você acha que devo levar qual das duas calças?
- Tanto faz, ambas são lindas. Leva a lilás.
- Mas eu gostei mais da vermelha...
- Ai, tanto faz. Por que não levar a lilás, então?
- Ué, se tanto faz, então por que não levar a vermelha, já que gostei mais?
- Nossa, não está mais aqui quem falou! As pessoas são tão estressadas por motivos pequenos...
E quem se importava em se livrar de um de seus ‘tanto faz’ sem parecer uma pessoa obsessiva, recebia sempre a mesma resposta:
- Tanto faz.
27 de nov. de 2008
Câmera, filtros, chuva!
Karmem era daquelas alunas mais aplicadas. Ainda que para isso eu tivesse que me aplicar em tudo para concretizar suas idéias. Como na vez em que recebemos como tarefa fazer um vídeo para a faculdade de jornalismo. Tema livre, formato idem. O que à primeira vista pareceu ser o anúncio de um trabalho fácil, sem maiores problemas, logo transformou-se em um jogo de ego, no qual Karmem desejava a todo custo mostrar que podia, sim, superar a si mesma e ainda ter uma idéia simplória, condizente com a atual onda de desapego à matéria e às grandes produções em favor das histórias simples produzidas por "gente como a gente".
- Karmem, vamos aproveitar que dessa vez não tem tema específico e usar os seus contatos na TV?
A essa altura, Karmem já era responsável por um quadro no Jornal Eco, um respeitado programa com foco ecológico em uma emissora educativa.
- Como assim?
- Seguinte: você conversa com o pessoal na TV, pega umas imagens de arquivo e a gente monta um programa inteiro! Só temos que produzir dez minutos mesmo. A gente insere uma entrevista e mata o trabalho. Que tal?
(silêncio)
- Olha, já tenho até um tema: programas infantis. Vamos fazer um especial tipo "memória", mostrando várias cenas antigas, em branco e preto, até. Assim, a gente ainda sensibiliza o professor e garante uma nota alta.
(silêncio)
- Você não vai dizer nada, Karmem?
- Não.
- Por que não?
- Porque eu não acredito que você quer fazer isso. Que absurdo! Fazer um programa usando cenas de outros! Isso é plágio! E ainda me fazer ter de convencer o pessoal do arquivo a liberar isso. Você sabe o que a última estudante que pediu para liberarem os arquivos teve de fazer para conseguir as imagens?
- O quê?
- Bom, ninguém sabe, mas ela ficou mancando por umas três semanas.
- Mas o que você quer fazer, então?
E aí veio à tona o brilho dos enormes olhos castanhos, enquanto Karmem ajeitava os cabelos para falar. Nunca entendi qual a relação de Karmem com seus cabelos, mas parecia que arrumar seus cachos dava-lhe confiança total no que quer que fosse dizer. A verdade é que Karmem já tinha tido uma idéia e, quando Karmem tem uma idéia, todas as outras do mundo perdiam o sentido.
- Meu querido, você sabe a casa de praia dos meus pais?
Claro que sabia. Era lá que eles me faziam dormir na sala, num colchão que tinha ficado velho demais para o cachorro usar e ao lado de um tio que a cada ronco fazia todos os sapos coacharem assustados.
- Sim. O que que tem?
- Você sabe em que praia ela fica?
Ficava numa praia igual a todas as outras: cheia de areia, água e sal.
- Sim...
- Então. O litoral norte de São Paulo é parte essencial da história do país. Vamos contar os acontecimentos históricos dessas praias! A gente ainda aproveita e passa o fim de semana na praia! Não é genial? Dá até para gravar naquelas ruínas, vai ficar maravilhoso!
Sim, era genial e prático. Só teríamos que nos locomover mais de trezentos quilômetros para chegar, apenas Karmem apareceria no vídeo, pois eu teria que segurar a câmera (sem tripé, para ela poder reclamar que a imagem ficara tremida), gravar tudo debaixo de sol e ventando, para que também pudesse reclamar dos cabelos voando e perdendo a chapinha.
- Nossa, eu jamais teria tido uma idéia tão incrível! Ainda bem que a gente tem você para pensar por nós, Karmem.
E lá veio o sorriso de Karmem, que compensaria tudo que eu sabia que iria passar. Ou melhor, não, eu não sabia.
Primeiro, eu tive que descobrir a história das praias. Sim, pois Karmem não tinha a mínima idéia do que havia acontecido ali. Só sabia que era o seu lugar de veraneio desde criança e, portanto, alguma coisa de importante devia ter. Nem que fizéssemos uma pauta especial sobre o primeiro lugar em que ela havia comido ostras ou onde ela tinha ralado os joelhos para aprender a andar de bicicleta. Algo assim.
Depois de vasculhar toda a internet, não foi possível identificar uma única informação sobre qualquer acontecimento importante naquelas praias. Pelo que pesquisei, tudo que acontecia lá era os peixes nadarem nas águas, siris passearem pelas areias, turistas comerem milho, tomarem água de coco e pegarem bicho geográfico, crianças ficarem com insolação e um gordinho sempre ficar chorando porque voou areia no sorvete dele.
Nada mais, nada menos.
Mas eu não podia dizer a Karmem que sua praia não era importante, ora, onde já se viu? Havia até ruínas lá! Deviam ser, sei lá, do período paleolítico!
E foi atrás de informação sobre as ruínas que liguei para a prefeitura de Ubatuba.
- Foi ali que o Padre Anchieta ensinou os índios a escreverem?
- Não, não foi. Foi numa praia mais para cima...
- E as ruínas que lá se encontram? Eram um quartel general secreto que durante anos treinou agentes do exército brasileiro que atuavam no exterior, capazes de sobreviver a altas temperaturas e a se camuflarem na areia utilizando as técnicas da invisibilidade ninja?
- Ruína? Que ruína? Ah, aqueles pedaços de parede? Era a casa do seu Omar, que ele tentou reformar depois que a maresia acabou com tudo, mas o dinheiro acabou no meio. Grande seu Omar. Olha, ele tinha um filho que era caolho, mas muito boa gente...
A minha missão era achar uma forma de arrancar alguma coisa para falar no trabalho. Nem que eu inventasse! A solução foi falar sobre a colonização de Ubatuba em si e do que havia de mais importante ali. Não, a colonização do Brasil não havia sido iniciada ali, mas não tinha sido muito diferente do resto do país, certo? E dava até para enfiar a parte do Padre Anchieta ensinar os índios a escrever, que, afinal, tinha sido ali pertinho mesmo e ninguém iria reconhecer a praia só de ver a areia, iria?
E assim eu consegui, apesar das dificuldades, escrever dez páginas de conteúdo, o que é bastante se pensarmos em um vídeo. Dava uma página por minuto.
- Karmem, eu já peguei a câmera do meu avô, mas ele só tinha uma bateria. Eu já comprei mais duas. Você pediu à sua irmã para carregar as suas três?
- Mas para que tudo isso? Cada uma dura doze horas, não é?
Não podia contar a ela que, por essa conta, quatro baterias dariam para ficar gravando o final de semana inteiro, ininterruptamente.
- Ah, mas você sabe como a gente não pode confiar... Vai que uma delas falha, a outra já está descarregada e a gente acha a melhor imagem...
Não é que eu não confiasse nos aparelhos eletrônicos, eu não confiava era em Karmem mesmo. Sabia que ela podia deixar a câmera ligada a noite toda, derrubar uma bateria no mar (senão a câmera inteira) e ainda nem dizer à irmã para carregá-las. Por isso liguei para sua irmã.
- Oi. Tudo bem?
- Já carreguei as baterias.
A irmã de Karmem nunca dizia mais do que o estritamente necessário. Jamais.
- Olha, obrigado, viu?
(silêncio e desligou o telefone)
A única parte em que Karmem entrava na pré-produção do trabalho era convencer seus pais, novamente, de que eu não era o anti-cristo em pessoa e podia ir com eles à praia. Foram necessários apenas três horas de discussão, uma ameaça de greve de fome e parar de respirar uma vez apenas para conseguir. Karmem era muita madura.
E cada vez eles me aceitavam mais (ou me rejeitavam menos).
Partimos numa sexta-feira à noite, pois o pai de Karmem achava mais seguro fazer três horas de viagem de madrugada numa estrada sem iluminação, após a uma da manhã, sem ter parado para descansar depois de mais de vinte horas acordado, do que expor a família ao sol do dia em excesso. Depois ficavam todos estirados na praia o dia inteiro, cansados demais para se locomover para debaixo do guarda-sol.
Antes de sair, testei uma a uma todas as baterias e reli o texto (cada uma das seis cópias).
- Mas para quê tantas cópias? Somos só nós dois...
- Uma delas pode voar, a outra cair no mar, essas coisas. Depois, não vão atrapalhar, né?
- Karmem! Corre logo para o carro, que está todo mundo esperando! E diz para esse seu namorado que é melhor ele colocar as coisas dele no carro, senão não vai mais caber!
A maioria das pessoas da família de Karmem falava como se eu fosse algum tipo de surdo ou estrangeiro, que não fosse capaz de compreender o que eles diziam. Pediam para Karmem retransmitir tudo e nunca falavam diretamente comigo, ainda que eu estivesse no mesmo cômodo.
- Pega as suas coisas e corre, que eles querem mais é deixar você aqui!
- Mas...
- Vai logo, logo! Olha aqui a bolsa da câmera!
E enfim partimos, depois que eles conseguiram encaixar, que eu tenha visto, uma churrasqueira, uma piscina inflável (cheia), um carrinho de rolimã, um saco de cimento, três caixas de isopor cheias de ostras, embaladas em gelo seco, e roupas suficientes para passar o mês. Eram assim todos os finais de semana na praia. Karmem levava pelo menos quinze combinações diferentes de biquínis para cada dia.
O único que não relaxava nessas viagens era eu. Talvez porque eu já tivesse presenciado que até o pai de Karmem aproveitava para tirar rápidos cochilos, mesmo estando ao volante. Mas Karmem me reconfortou, alertando que, sem os óculos, ele não enxergava a estrada mesmo, então não fazia diferença.
Chegamos, depois de três horas, mais ou menos às quatro da madrugada. E Karmem pediu para eu acordá-la às seis, ou seja, dali a duas horas, para começarmos logo a filmar, o mais cedo possível.
Deitei no colchãozinho (aquele do cachorro) e senti que nem tinha fechado ainda as pestanas quando o alarme do meu relógio tocou. Já eram seis horas.
- Karmem, acorda, já fiz o seu café da manhã, com café, pãozinho na chapa e tudo que você gosta.
A reação de Karmem era sempre se enfiar debaixo das cobertas para, quando eu tentasse tirá-las, fazer cara de criança abandonada no farol sendo torturada por agentes da Gestapo. Impossível resistir e arrancá-la da cama.
Às nove horas, lá veio Karmem. Irritada.
- Por que você não me acordou?
- Mas eu acordei! A cada quinze minutos, desde às seis! Cada vez você me xingou de uma coisa diferente! A primeira foi monstro da madrugada, a segunda foi coração enegrecido que não respeita o sono alheio, a terceira...
- Chega, eu já lembrei. Cadê o meu café?
- Aqui, quentinho. Como eu sabia que você podia demorar, eu pus na garrafa térmica.
- Bom, na verdade, foi bem melhor eu ter dormido, sabe? Agora estou bem mais descansada. Nossa, eu estaria um trapo se estivesse acordada desde aquela hora!
- Eu acordei às seis...
Mas Karmem ignorava qualquer comentário que não fosse feito sobre ela.
- Bom, agora que já acordei direito, vamos passar o texto antes de sair para gravar?
- Claro. Deixa só eu pegar aqui na malinha da câmera, onde eu guardei as seis cópias. E abri a maletinha. E vi passar, como num filme, o que acontecera na noite anterior. Karmem fechando a mala e me mandando colocá-la logo no carro enquanto eu revisava os textos um a um. É uma lógica fácil, mas no momento foi difícil de compreender. Se a mala fora fechada antes de eu terminar de ler, então não havia como as páginas estarem ali dentro. Certo? Absolutamente certo. Infeliz e irremediavelmente certo.
- Karmem, olha só que engraçado, você não vai acreditar...
E contei que havia deixado os textos, as seis cópias, lá na casa dela, em São Paulo.
Cômico, não?
(silêncio de dez minutos)
- Vamos ver se eu entendi tudo direito.
Ainda havia calma na voz de Karmem.
- Você imprimiu seis cópias de um texto, ou seja, sessenta folhas de papel, para que não faltasse nenhuma para a gente aqui.
Eu só conseguia consentir com a cabeça.
- E deixou as seis lá em São Paulo.
Continuei acenando.
- Hmmm. Bom, você sabe que, assim, pelo menos, a gente não vai perder nenhuma delas.
Que ótimo! Ela estava encarando com bom humor!
- Para você ver, Karmem! Que distraído eu sou...
- Distraído?!? É um desastrado, isso sim! Desastroso! Você acabou com o programa! Eu sei porque você fez isso! Foi para boicotar, não foi? Só porque a minha idéia foi melhor do que a sua! Como você é invejoso! Agora, vamos repetir de ano e nem vamos nos formar por causa desse trabalho! A entrega é para terça-feira, você sabe disso! Como vamos voltar lá em São Paulo para pegar esse texto?
Foi esse treinamento que me deixou com o raciocínio rápido para solucionar problemas. Não foi nada em minhas experiências profissionais; pelo contrário, todos sempre elogiaram como eu conseguia pensar numa solução rápida para tudo, resultado de anos namorando Karmem.
- Karmem, eu vou pedir uma cópia do trabalho, está gravado no meu computador em casa!
- E aqui lá tem computador para acessar e-mail? Não temos nem fax!
- Eu ligo para casa, peço para a minha mãe ditar e escrevo tudo por aqui...
- Não acredito! Ainda mais confiar na sua mãe! Era melhor a gente ir correndo até lá e trazer o texto!
- Calma, que eu tenho tudo sob controle!
- Ah, você sabe que depois quando vier a conta você vai pagar esse interurbano, hein? Da última vez o meu pai, além de jogar em uma praga nas suas gerações passadas, quase jogou uma nas gerações futuras e pode ser que isso afete algum descendente meu!
Ela ainda pensava em um dia ter filhos comigo, o que era positivo.
- Mãe? Bom dia. Tudo bem? Sim, eu fiz boa viagem. Não, não aconteceu nada ruim. É, eu geralmente não ligo quando vou viajar para avisar que cheguei bem e deixo você com o coração na mão por dias, né? Então, essa é a boa notícia, eu estou bem!
Karmem já me lançava o olhar de "vai enrolar quanto?".
- Bom, mãe, olha, por incrível que pareça, eu preciso de um favor seu... Dá para você chegar perto do computador? Tá, vai lá pegar o telefone sem fio.
(silêncio assustador)
- Já? Então, liga o computador... Como? Nesse botãozinho que tem um circulinho, na CPU... Essa parte que fica do lado debaixo, em pé. Pronto? Então, depois que ligar, eu preciso que você abra um arquivo para mim... E me dite o que estiver escrito... Não, eu não estou louco... Sim, eu sei que é interurbano, mas eu preciso... Não, eu não trouxe, acabei deixando tudo lá na casa da Karmem, acredita? Não precisa xingar! Tá, pode ir desligar a panela enquanto ele liga.
E o maior problema de todos surgiu naquele instante.
- Karmem, você pode pegar um caderno para mim e uma caneta?
- Caderno? Caneta? Aqui é casa de praia, não tem nada disso!
Foi uma flecha na minha cabeça.
- Mãe? Espera um pouco. Eu já ligo de novo.
E olhei para aqueles olhos que me fritavam.
- Como assim, Karmem? Não tem um caderno por aqui?
- Você está vendo algum?
E olhei ao redor. Não, não havia nada ali que parecesse um caderno.
Nunca um espaço tão pequeno fora antes revirado com tanto vigor. Reviramos cada móvel, atrás do sofá, sempre esperando que por algum milagre uma árvore de cadernos ou pelo menos folhas de papel sulfite fosse surgir em alguma brecha. Pensei até em anotar tudo na parede, mas como é que eu ia levar depois para a praia? Ainda mais segurando a câmera.
- Karmem, tem alguma venda mercadinho, qualquer coisa aqui por perto?
- Na cidade tem.
A cidade ficava a cerca de cinqüenta quilômetros. Tentamos os vizinhos, mas ninguém tinha ido para a praia naquele fim de semana. Provavelmente tinham visto a previsão do tempo.
Mas a necessidade prova ser mesmo mãe das invenções.
- Olha, eu quero ver agora como é que você vai se virar para a gente gravar esse programa, sem texto!
- Karmem, eu vou dar um jeito...
Fui até a cozinha e achei uma solução.
- Tó. Isso é papel, não é? E está em branco.
- Você é louco?
Uma pergunta interessante, uma vez que eu já namorava Karmem há alguns anos. O pior louco é aquele que escolhe a loucura.
- Você tem outra sugestão? Olha, se abrir, fica com o dobro do tamanho, dá para anotar bastante coisa...
E começamos a abrir, um a um, os filtros de papel para café. O que mais eu podia fazer?
- Bom, Karmem, isso já está resolvido. Agora passa a caneta, que eu vou ligar de novo para a minha mãe...
- Caneta? Quando foi que a gente resolveu isso?
- Mas não tem caneta também? Ninguém escreve nada nessa casa?
A resposta dessa vez veio mais rápida, enquanto Karmem balançava negativamente a cabeça.
- Maquiagem. Karmem, uma daquelas bolsas enormes era de maquiagem, não era?
- Sim, aquela marrom.
- A maior?
- Claro! Eu lá ia aparecer no vídeo com olheiras?
- Você tem lápis de olho?
- De que cor você prefere? Acho que pro seu rosto...
- Karmem, é para anotar o trabalho, não para mim...
- O que, você vai gastar o meu lápis de olho com isso? Eu não acredito! Sabe quanto custaram os meus lápis?
- Eu compro outro, Karmem...
- Bom, então, passa naquela loja do shopping e compra daquela marca importada.
- Mãe? Já deu tempo de abrir o computador, né? Como assim, desligou? Eu demorei muito? Mas vai gastar mais energia ainda para ligar de novo! Vamos lá, no botãozinho com o circulinho... Isso. Não, é uma luz verdinha. Espera que já vai aparecer. Não, não tem problema que fica piscando, é assim mesmo. Não vai queimar a lampadinha! Tem que ligar o monitor também. Essa televisão que fica na sua frente. O botão é igual. Pronto? Agora, clica em "iniciar". Não, arrasta o cursor... Essa flechinha que você mexe com o mouse... Isso. Arrasta para o canto esquerdo inferior da tela. Tá vendo? Clica em iniciar...
A sensação era de estar operando um coração à distância. Só que, em vez de outro médico, era uma dona-de-casa que realizava a operação com as minhas coordenadas.
- Sim, mãe, eu sei que são dez páginas... Mãe. Mãe! Quanto antes a gente começar, mais cedo vamos terminar... Não, a culpa não é dela... Não, mãe, ela não fez... Sim, eu fiz o trabalho todo...
(olhar de reprovação)
- Quer dizer, a idéia foi toda da Karmem. Bom, mas vamos logo fazendo isso, né?
E lá veio todo o texto ditado, enquanto eu anotava com o lápis de olhos nos filtros de papel recém-abertos. Já tentou fazer isso? Desde esse dia, nunca mais andei sem pelo menos um bloquinho de anotações e uma caneta comigo. A cada frase que terminava, minha mãe xingava a mim e a Karmem.
Tive que fazer aquela letrinha bem pequena, pois só tínhamos oito filtros e eu não sabia se seriam suficientes. No fim, espremi tanto que couberam em quatro coadores.
- Mas quem é que consegue enxergar isso escrito aqui?
- Ah, Karmem, não está tão ruim assim, está?
Estava péssimo. Mas não faria diferença. Lembra dos vizinhos que não foram para a praia? Sim, eles realmente tinham ouvido a previsão do tempo. Porque, assim que calçamos os nossos tênis e nos preparamos para sair, com a única pauta de TV em papel de café da história e câmera a postos, ouvimos um trovão. O segundo maior índice pluviométrico do mundo é Ubatuba. Só na Amazônia chove mais do que ali, mais precisamente em cima da casa de praia de Karmem.
- Vamos assim mesmo! Pega já aquela guarda-sol grandão e trate de não tremer a câmera!
- Karmem, como é que eu vou gravar, segurar guarda-sol, carregar texto, nessa chuva?
- Não quero saber!
A chuva ficou tão forte que até Karmem percebeu que não seria possível sair para gravar. A essa altura, a família toda já tinha acordado com o alvoroço. A chuva durou apenas o dia inteiro. Assim que a noite caiu e não haveria mais luz natural para podermos gravar ao ar livre, ela cessou.
Jantamos (ou melhor, eles jantaram enquanto eu comia um pedaço de pão, pois eles insistiam em servir apenas frutos do mar quando iam para a praia, sabendo que eu sou totalmente alérgico) e fomos dormir, com a esperança de que fosse possível gravar tudo no dia seguinte, se não chovesse. Pelo menos o texto estava todo ali e passamos a limpo em um caderno recém-comprado na cidade à noite.
No segundo dia, o domingo, a natureza pareceu estar do nosso lado. Um céu azul limpo, sem nuvens! Sim, ia dar para gravar tudo! Um grito estridente fez trincar as lentes dos meus óculos e a possibilidade de enfim gravar a história daquelas praias de Ubatuba. A princípio, achei que fosse Karmem. Era sua irmã. Olhando no espelho seu rosto inteiro inchado e cheio de perebas. Depois foi a vez de Karmem e sua mãe gritarem também. Intoxicação alimentar. Bendito pedaço de pão! Ainda bem que eu não me arrisco com frutos do mar!
Nenhuma delas aceitou ir para um hospital local, por mais que seus planos de saúde cobrissem o atendimento naquelas cidades. E voltamos para São Paulo. Com o resto do dia livre (e livre mesmo, pois Karmem ficou no hospital e seu pai insistiu que eu não poderia ficar com ela, ainda que não fosse UTI nem nada, pois não era da família), só me restou escrever um outro programa inteiro. Mas no computador, né, que filtro de papel é só para emergência.
E ainda recebi um telefonema de Karmem:
- Chumbiligo, eu já estou melhor. Olha, eu estive pensando. Faz o seguinte, pesquise sobre programas infantis, que eu tive uma idéia. Vou tentar pegar imagens de arquivo da TV com imagens de programas antigos e a gente monta um especial. O que você acha?
- Ótimo, Karmem! Você também não pensou que a gente ainda pode entrevistar, digamos, uma psicóloga infantil para falar sobre o tema? Assim, damos o aval científico.
- Nossa, foi isso mesmo que eu pensei!
- Que bom, porque tem vários consultórios de psicólogas no prédio de escritórios em que trabalho! Eu vou lá e entrevisto uma delas na hora do almoço...
No dia seguinte, à noite, tínhamos um vasto material para editar e montamos o programa. Que tirou nota dez. E ainda guardo os filtros de papel!
- Karmem, vamos aproveitar que dessa vez não tem tema específico e usar os seus contatos na TV?
A essa altura, Karmem já era responsável por um quadro no Jornal Eco, um respeitado programa com foco ecológico em uma emissora educativa.
- Como assim?
- Seguinte: você conversa com o pessoal na TV, pega umas imagens de arquivo e a gente monta um programa inteiro! Só temos que produzir dez minutos mesmo. A gente insere uma entrevista e mata o trabalho. Que tal?
(silêncio)
- Olha, já tenho até um tema: programas infantis. Vamos fazer um especial tipo "memória", mostrando várias cenas antigas, em branco e preto, até. Assim, a gente ainda sensibiliza o professor e garante uma nota alta.
(silêncio)
- Você não vai dizer nada, Karmem?
- Não.
- Por que não?
- Porque eu não acredito que você quer fazer isso. Que absurdo! Fazer um programa usando cenas de outros! Isso é plágio! E ainda me fazer ter de convencer o pessoal do arquivo a liberar isso. Você sabe o que a última estudante que pediu para liberarem os arquivos teve de fazer para conseguir as imagens?
- O quê?
- Bom, ninguém sabe, mas ela ficou mancando por umas três semanas.
- Mas o que você quer fazer, então?
E aí veio à tona o brilho dos enormes olhos castanhos, enquanto Karmem ajeitava os cabelos para falar. Nunca entendi qual a relação de Karmem com seus cabelos, mas parecia que arrumar seus cachos dava-lhe confiança total no que quer que fosse dizer. A verdade é que Karmem já tinha tido uma idéia e, quando Karmem tem uma idéia, todas as outras do mundo perdiam o sentido.
- Meu querido, você sabe a casa de praia dos meus pais?
Claro que sabia. Era lá que eles me faziam dormir na sala, num colchão que tinha ficado velho demais para o cachorro usar e ao lado de um tio que a cada ronco fazia todos os sapos coacharem assustados.
- Sim. O que que tem?
- Você sabe em que praia ela fica?
Ficava numa praia igual a todas as outras: cheia de areia, água e sal.
- Sim...
- Então. O litoral norte de São Paulo é parte essencial da história do país. Vamos contar os acontecimentos históricos dessas praias! A gente ainda aproveita e passa o fim de semana na praia! Não é genial? Dá até para gravar naquelas ruínas, vai ficar maravilhoso!
Sim, era genial e prático. Só teríamos que nos locomover mais de trezentos quilômetros para chegar, apenas Karmem apareceria no vídeo, pois eu teria que segurar a câmera (sem tripé, para ela poder reclamar que a imagem ficara tremida), gravar tudo debaixo de sol e ventando, para que também pudesse reclamar dos cabelos voando e perdendo a chapinha.
- Nossa, eu jamais teria tido uma idéia tão incrível! Ainda bem que a gente tem você para pensar por nós, Karmem.
E lá veio o sorriso de Karmem, que compensaria tudo que eu sabia que iria passar. Ou melhor, não, eu não sabia.
Primeiro, eu tive que descobrir a história das praias. Sim, pois Karmem não tinha a mínima idéia do que havia acontecido ali. Só sabia que era o seu lugar de veraneio desde criança e, portanto, alguma coisa de importante devia ter. Nem que fizéssemos uma pauta especial sobre o primeiro lugar em que ela havia comido ostras ou onde ela tinha ralado os joelhos para aprender a andar de bicicleta. Algo assim.
Depois de vasculhar toda a internet, não foi possível identificar uma única informação sobre qualquer acontecimento importante naquelas praias. Pelo que pesquisei, tudo que acontecia lá era os peixes nadarem nas águas, siris passearem pelas areias, turistas comerem milho, tomarem água de coco e pegarem bicho geográfico, crianças ficarem com insolação e um gordinho sempre ficar chorando porque voou areia no sorvete dele.
Nada mais, nada menos.
Mas eu não podia dizer a Karmem que sua praia não era importante, ora, onde já se viu? Havia até ruínas lá! Deviam ser, sei lá, do período paleolítico!
E foi atrás de informação sobre as ruínas que liguei para a prefeitura de Ubatuba.
- Foi ali que o Padre Anchieta ensinou os índios a escreverem?
- Não, não foi. Foi numa praia mais para cima...
- E as ruínas que lá se encontram? Eram um quartel general secreto que durante anos treinou agentes do exército brasileiro que atuavam no exterior, capazes de sobreviver a altas temperaturas e a se camuflarem na areia utilizando as técnicas da invisibilidade ninja?
- Ruína? Que ruína? Ah, aqueles pedaços de parede? Era a casa do seu Omar, que ele tentou reformar depois que a maresia acabou com tudo, mas o dinheiro acabou no meio. Grande seu Omar. Olha, ele tinha um filho que era caolho, mas muito boa gente...
A minha missão era achar uma forma de arrancar alguma coisa para falar no trabalho. Nem que eu inventasse! A solução foi falar sobre a colonização de Ubatuba em si e do que havia de mais importante ali. Não, a colonização do Brasil não havia sido iniciada ali, mas não tinha sido muito diferente do resto do país, certo? E dava até para enfiar a parte do Padre Anchieta ensinar os índios a escrever, que, afinal, tinha sido ali pertinho mesmo e ninguém iria reconhecer a praia só de ver a areia, iria?
E assim eu consegui, apesar das dificuldades, escrever dez páginas de conteúdo, o que é bastante se pensarmos em um vídeo. Dava uma página por minuto.
- Karmem, eu já peguei a câmera do meu avô, mas ele só tinha uma bateria. Eu já comprei mais duas. Você pediu à sua irmã para carregar as suas três?
- Mas para que tudo isso? Cada uma dura doze horas, não é?
Não podia contar a ela que, por essa conta, quatro baterias dariam para ficar gravando o final de semana inteiro, ininterruptamente.
- Ah, mas você sabe como a gente não pode confiar... Vai que uma delas falha, a outra já está descarregada e a gente acha a melhor imagem...
Não é que eu não confiasse nos aparelhos eletrônicos, eu não confiava era em Karmem mesmo. Sabia que ela podia deixar a câmera ligada a noite toda, derrubar uma bateria no mar (senão a câmera inteira) e ainda nem dizer à irmã para carregá-las. Por isso liguei para sua irmã.
- Oi. Tudo bem?
- Já carreguei as baterias.
A irmã de Karmem nunca dizia mais do que o estritamente necessário. Jamais.
- Olha, obrigado, viu?
(silêncio e desligou o telefone)
A única parte em que Karmem entrava na pré-produção do trabalho era convencer seus pais, novamente, de que eu não era o anti-cristo em pessoa e podia ir com eles à praia. Foram necessários apenas três horas de discussão, uma ameaça de greve de fome e parar de respirar uma vez apenas para conseguir. Karmem era muita madura.
E cada vez eles me aceitavam mais (ou me rejeitavam menos).
Partimos numa sexta-feira à noite, pois o pai de Karmem achava mais seguro fazer três horas de viagem de madrugada numa estrada sem iluminação, após a uma da manhã, sem ter parado para descansar depois de mais de vinte horas acordado, do que expor a família ao sol do dia em excesso. Depois ficavam todos estirados na praia o dia inteiro, cansados demais para se locomover para debaixo do guarda-sol.
Antes de sair, testei uma a uma todas as baterias e reli o texto (cada uma das seis cópias).
- Mas para quê tantas cópias? Somos só nós dois...
- Uma delas pode voar, a outra cair no mar, essas coisas. Depois, não vão atrapalhar, né?
- Karmem! Corre logo para o carro, que está todo mundo esperando! E diz para esse seu namorado que é melhor ele colocar as coisas dele no carro, senão não vai mais caber!
A maioria das pessoas da família de Karmem falava como se eu fosse algum tipo de surdo ou estrangeiro, que não fosse capaz de compreender o que eles diziam. Pediam para Karmem retransmitir tudo e nunca falavam diretamente comigo, ainda que eu estivesse no mesmo cômodo.
- Pega as suas coisas e corre, que eles querem mais é deixar você aqui!
- Mas...
- Vai logo, logo! Olha aqui a bolsa da câmera!
E enfim partimos, depois que eles conseguiram encaixar, que eu tenha visto, uma churrasqueira, uma piscina inflável (cheia), um carrinho de rolimã, um saco de cimento, três caixas de isopor cheias de ostras, embaladas em gelo seco, e roupas suficientes para passar o mês. Eram assim todos os finais de semana na praia. Karmem levava pelo menos quinze combinações diferentes de biquínis para cada dia.
O único que não relaxava nessas viagens era eu. Talvez porque eu já tivesse presenciado que até o pai de Karmem aproveitava para tirar rápidos cochilos, mesmo estando ao volante. Mas Karmem me reconfortou, alertando que, sem os óculos, ele não enxergava a estrada mesmo, então não fazia diferença.
Chegamos, depois de três horas, mais ou menos às quatro da madrugada. E Karmem pediu para eu acordá-la às seis, ou seja, dali a duas horas, para começarmos logo a filmar, o mais cedo possível.
Deitei no colchãozinho (aquele do cachorro) e senti que nem tinha fechado ainda as pestanas quando o alarme do meu relógio tocou. Já eram seis horas.
- Karmem, acorda, já fiz o seu café da manhã, com café, pãozinho na chapa e tudo que você gosta.
A reação de Karmem era sempre se enfiar debaixo das cobertas para, quando eu tentasse tirá-las, fazer cara de criança abandonada no farol sendo torturada por agentes da Gestapo. Impossível resistir e arrancá-la da cama.
Às nove horas, lá veio Karmem. Irritada.
- Por que você não me acordou?
- Mas eu acordei! A cada quinze minutos, desde às seis! Cada vez você me xingou de uma coisa diferente! A primeira foi monstro da madrugada, a segunda foi coração enegrecido que não respeita o sono alheio, a terceira...
- Chega, eu já lembrei. Cadê o meu café?
- Aqui, quentinho. Como eu sabia que você podia demorar, eu pus na garrafa térmica.
- Bom, na verdade, foi bem melhor eu ter dormido, sabe? Agora estou bem mais descansada. Nossa, eu estaria um trapo se estivesse acordada desde aquela hora!
- Eu acordei às seis...
Mas Karmem ignorava qualquer comentário que não fosse feito sobre ela.
- Bom, agora que já acordei direito, vamos passar o texto antes de sair para gravar?
- Claro. Deixa só eu pegar aqui na malinha da câmera, onde eu guardei as seis cópias. E abri a maletinha. E vi passar, como num filme, o que acontecera na noite anterior. Karmem fechando a mala e me mandando colocá-la logo no carro enquanto eu revisava os textos um a um. É uma lógica fácil, mas no momento foi difícil de compreender. Se a mala fora fechada antes de eu terminar de ler, então não havia como as páginas estarem ali dentro. Certo? Absolutamente certo. Infeliz e irremediavelmente certo.
- Karmem, olha só que engraçado, você não vai acreditar...
E contei que havia deixado os textos, as seis cópias, lá na casa dela, em São Paulo.
Cômico, não?
(silêncio de dez minutos)
- Vamos ver se eu entendi tudo direito.
Ainda havia calma na voz de Karmem.
- Você imprimiu seis cópias de um texto, ou seja, sessenta folhas de papel, para que não faltasse nenhuma para a gente aqui.
Eu só conseguia consentir com a cabeça.
- E deixou as seis lá em São Paulo.
Continuei acenando.
- Hmmm. Bom, você sabe que, assim, pelo menos, a gente não vai perder nenhuma delas.
Que ótimo! Ela estava encarando com bom humor!
- Para você ver, Karmem! Que distraído eu sou...
- Distraído?!? É um desastrado, isso sim! Desastroso! Você acabou com o programa! Eu sei porque você fez isso! Foi para boicotar, não foi? Só porque a minha idéia foi melhor do que a sua! Como você é invejoso! Agora, vamos repetir de ano e nem vamos nos formar por causa desse trabalho! A entrega é para terça-feira, você sabe disso! Como vamos voltar lá em São Paulo para pegar esse texto?
Foi esse treinamento que me deixou com o raciocínio rápido para solucionar problemas. Não foi nada em minhas experiências profissionais; pelo contrário, todos sempre elogiaram como eu conseguia pensar numa solução rápida para tudo, resultado de anos namorando Karmem.
- Karmem, eu vou pedir uma cópia do trabalho, está gravado no meu computador em casa!
- E aqui lá tem computador para acessar e-mail? Não temos nem fax!
- Eu ligo para casa, peço para a minha mãe ditar e escrevo tudo por aqui...
- Não acredito! Ainda mais confiar na sua mãe! Era melhor a gente ir correndo até lá e trazer o texto!
- Calma, que eu tenho tudo sob controle!
- Ah, você sabe que depois quando vier a conta você vai pagar esse interurbano, hein? Da última vez o meu pai, além de jogar em uma praga nas suas gerações passadas, quase jogou uma nas gerações futuras e pode ser que isso afete algum descendente meu!
Ela ainda pensava em um dia ter filhos comigo, o que era positivo.
- Mãe? Bom dia. Tudo bem? Sim, eu fiz boa viagem. Não, não aconteceu nada ruim. É, eu geralmente não ligo quando vou viajar para avisar que cheguei bem e deixo você com o coração na mão por dias, né? Então, essa é a boa notícia, eu estou bem!
Karmem já me lançava o olhar de "vai enrolar quanto?".
- Bom, mãe, olha, por incrível que pareça, eu preciso de um favor seu... Dá para você chegar perto do computador? Tá, vai lá pegar o telefone sem fio.
(silêncio assustador)
- Já? Então, liga o computador... Como? Nesse botãozinho que tem um circulinho, na CPU... Essa parte que fica do lado debaixo, em pé. Pronto? Então, depois que ligar, eu preciso que você abra um arquivo para mim... E me dite o que estiver escrito... Não, eu não estou louco... Sim, eu sei que é interurbano, mas eu preciso... Não, eu não trouxe, acabei deixando tudo lá na casa da Karmem, acredita? Não precisa xingar! Tá, pode ir desligar a panela enquanto ele liga.
E o maior problema de todos surgiu naquele instante.
- Karmem, você pode pegar um caderno para mim e uma caneta?
- Caderno? Caneta? Aqui é casa de praia, não tem nada disso!
Foi uma flecha na minha cabeça.
- Mãe? Espera um pouco. Eu já ligo de novo.
E olhei para aqueles olhos que me fritavam.
- Como assim, Karmem? Não tem um caderno por aqui?
- Você está vendo algum?
E olhei ao redor. Não, não havia nada ali que parecesse um caderno.
Nunca um espaço tão pequeno fora antes revirado com tanto vigor. Reviramos cada móvel, atrás do sofá, sempre esperando que por algum milagre uma árvore de cadernos ou pelo menos folhas de papel sulfite fosse surgir em alguma brecha. Pensei até em anotar tudo na parede, mas como é que eu ia levar depois para a praia? Ainda mais segurando a câmera.
- Karmem, tem alguma venda mercadinho, qualquer coisa aqui por perto?
- Na cidade tem.
A cidade ficava a cerca de cinqüenta quilômetros. Tentamos os vizinhos, mas ninguém tinha ido para a praia naquele fim de semana. Provavelmente tinham visto a previsão do tempo.
Mas a necessidade prova ser mesmo mãe das invenções.
- Olha, eu quero ver agora como é que você vai se virar para a gente gravar esse programa, sem texto!
- Karmem, eu vou dar um jeito...
Fui até a cozinha e achei uma solução.
- Tó. Isso é papel, não é? E está em branco.
- Você é louco?
Uma pergunta interessante, uma vez que eu já namorava Karmem há alguns anos. O pior louco é aquele que escolhe a loucura.
- Você tem outra sugestão? Olha, se abrir, fica com o dobro do tamanho, dá para anotar bastante coisa...
E começamos a abrir, um a um, os filtros de papel para café. O que mais eu podia fazer?
- Bom, Karmem, isso já está resolvido. Agora passa a caneta, que eu vou ligar de novo para a minha mãe...
- Caneta? Quando foi que a gente resolveu isso?
- Mas não tem caneta também? Ninguém escreve nada nessa casa?
A resposta dessa vez veio mais rápida, enquanto Karmem balançava negativamente a cabeça.
- Maquiagem. Karmem, uma daquelas bolsas enormes era de maquiagem, não era?
- Sim, aquela marrom.
- A maior?
- Claro! Eu lá ia aparecer no vídeo com olheiras?
- Você tem lápis de olho?
- De que cor você prefere? Acho que pro seu rosto...
- Karmem, é para anotar o trabalho, não para mim...
- O que, você vai gastar o meu lápis de olho com isso? Eu não acredito! Sabe quanto custaram os meus lápis?
- Eu compro outro, Karmem...
- Bom, então, passa naquela loja do shopping e compra daquela marca importada.
- Mãe? Já deu tempo de abrir o computador, né? Como assim, desligou? Eu demorei muito? Mas vai gastar mais energia ainda para ligar de novo! Vamos lá, no botãozinho com o circulinho... Isso. Não, é uma luz verdinha. Espera que já vai aparecer. Não, não tem problema que fica piscando, é assim mesmo. Não vai queimar a lampadinha! Tem que ligar o monitor também. Essa televisão que fica na sua frente. O botão é igual. Pronto? Agora, clica em "iniciar". Não, arrasta o cursor... Essa flechinha que você mexe com o mouse... Isso. Arrasta para o canto esquerdo inferior da tela. Tá vendo? Clica em iniciar...
A sensação era de estar operando um coração à distância. Só que, em vez de outro médico, era uma dona-de-casa que realizava a operação com as minhas coordenadas.
- Sim, mãe, eu sei que são dez páginas... Mãe. Mãe! Quanto antes a gente começar, mais cedo vamos terminar... Não, a culpa não é dela... Não, mãe, ela não fez... Sim, eu fiz o trabalho todo...
(olhar de reprovação)
- Quer dizer, a idéia foi toda da Karmem. Bom, mas vamos logo fazendo isso, né?
E lá veio todo o texto ditado, enquanto eu anotava com o lápis de olhos nos filtros de papel recém-abertos. Já tentou fazer isso? Desde esse dia, nunca mais andei sem pelo menos um bloquinho de anotações e uma caneta comigo. A cada frase que terminava, minha mãe xingava a mim e a Karmem.
Tive que fazer aquela letrinha bem pequena, pois só tínhamos oito filtros e eu não sabia se seriam suficientes. No fim, espremi tanto que couberam em quatro coadores.
- Mas quem é que consegue enxergar isso escrito aqui?
- Ah, Karmem, não está tão ruim assim, está?
Estava péssimo. Mas não faria diferença. Lembra dos vizinhos que não foram para a praia? Sim, eles realmente tinham ouvido a previsão do tempo. Porque, assim que calçamos os nossos tênis e nos preparamos para sair, com a única pauta de TV em papel de café da história e câmera a postos, ouvimos um trovão. O segundo maior índice pluviométrico do mundo é Ubatuba. Só na Amazônia chove mais do que ali, mais precisamente em cima da casa de praia de Karmem.
- Vamos assim mesmo! Pega já aquela guarda-sol grandão e trate de não tremer a câmera!
- Karmem, como é que eu vou gravar, segurar guarda-sol, carregar texto, nessa chuva?
- Não quero saber!
A chuva ficou tão forte que até Karmem percebeu que não seria possível sair para gravar. A essa altura, a família toda já tinha acordado com o alvoroço. A chuva durou apenas o dia inteiro. Assim que a noite caiu e não haveria mais luz natural para podermos gravar ao ar livre, ela cessou.
Jantamos (ou melhor, eles jantaram enquanto eu comia um pedaço de pão, pois eles insistiam em servir apenas frutos do mar quando iam para a praia, sabendo que eu sou totalmente alérgico) e fomos dormir, com a esperança de que fosse possível gravar tudo no dia seguinte, se não chovesse. Pelo menos o texto estava todo ali e passamos a limpo em um caderno recém-comprado na cidade à noite.
No segundo dia, o domingo, a natureza pareceu estar do nosso lado. Um céu azul limpo, sem nuvens! Sim, ia dar para gravar tudo! Um grito estridente fez trincar as lentes dos meus óculos e a possibilidade de enfim gravar a história daquelas praias de Ubatuba. A princípio, achei que fosse Karmem. Era sua irmã. Olhando no espelho seu rosto inteiro inchado e cheio de perebas. Depois foi a vez de Karmem e sua mãe gritarem também. Intoxicação alimentar. Bendito pedaço de pão! Ainda bem que eu não me arrisco com frutos do mar!
Nenhuma delas aceitou ir para um hospital local, por mais que seus planos de saúde cobrissem o atendimento naquelas cidades. E voltamos para São Paulo. Com o resto do dia livre (e livre mesmo, pois Karmem ficou no hospital e seu pai insistiu que eu não poderia ficar com ela, ainda que não fosse UTI nem nada, pois não era da família), só me restou escrever um outro programa inteiro. Mas no computador, né, que filtro de papel é só para emergência.
E ainda recebi um telefonema de Karmem:
- Chumbiligo, eu já estou melhor. Olha, eu estive pensando. Faz o seguinte, pesquise sobre programas infantis, que eu tive uma idéia. Vou tentar pegar imagens de arquivo da TV com imagens de programas antigos e a gente monta um especial. O que você acha?
- Ótimo, Karmem! Você também não pensou que a gente ainda pode entrevistar, digamos, uma psicóloga infantil para falar sobre o tema? Assim, damos o aval científico.
- Nossa, foi isso mesmo que eu pensei!
- Que bom, porque tem vários consultórios de psicólogas no prédio de escritórios em que trabalho! Eu vou lá e entrevisto uma delas na hora do almoço...
No dia seguinte, à noite, tínhamos um vasto material para editar e montamos o programa. Que tirou nota dez. E ainda guardo os filtros de papel!
19 de nov. de 2008
Respeito
O Vadoberto sempre teve um problema com o peso. Desde cedo, a família italiana acostumou-se a deixar sua barriga sempre cheia, fosse do que fosse. “Criança gordinha é sinal de saúde”, repetia a avó, horrorizada sempre com os amiguinhos magrinhos “esqueléticos, um horror!” do neto.
Chegou na pré-adolescência já com peso de adulto.
Na juventude toda, foi ouvindo de todos (menos da avó) o quanto estava errada sua alimentação.
“Você vai comer isso?”
“Você vai comer tudo isso?”
“Você vai comer tudo isso de novo?”
“Esse daí, se pudesse se prendia à geladeira para não ter que sair do lugar nunca mais.”
“Você só vai comer isso?” (essa última da Nona).
E decidiu fazer regime ao sair do colegial, influenciado tanto pelo mundo da publicidade que estampavam corpos esbeltos, quanto pela própria vontade de ganhar mais confiança.
Foi quando descobriu que os observadores tinham olhos também para as eventuais falhas de seu cardápio.
“Você só vai comer isso?”
“Você não vai comer mais nada?”
“Ai, você anda tão neurótico com a comida...”
“Esse daí, agora é rato de academia, só quer saber de exercícios em vez de viver a vida.”
“E eu que me matei no forno o dia todo!” (novamente da Nona).
Mas o Vadão (pois, apesar deter só um metro e sessenta, tinha o tamanho de um gigante na medição lateral e só era chamado no aumentativo), não se incomodava ainda. Nem quando percebeu que não se respeita um ex-gordinho, pois enxugara mais de trinta quilos.
“Ai, não vai comer o bolo do meu aniversário? Que desfeita! Vai me dar azar...”
“Não vai à nossa pizzada de sexta-feira?”
“Não vai experimentar esse empadão de bacon com provolone?”
“Não vai ao nosso coquetel?”
“O que que eu fiz para merecer um parente assim?” (a Nona).
E obviamente que o jovem ia cedendo, aos poucos. Começou com uma fatia da torta de queijo da Nona (para seu total deleite). Depois, uma lingüicinha não fazia mal a ninguém, não é verdade? E, ai, que dia quente, um sorvete é só para refrescar, nem pode ser classificado como alimento, entra na categoria de reclimatizador de ambiente. O ambiente estomacal, claro.
E o Vadão foi enchendo de novo, recebendo nova dose de comentários absolutamente construtivos quanto aos seus hábitos.
“Ih, ele não tem a menor força de vontade...”
“É um largado mesmo, não liga para o próprio corpo.”
“E eu que apoiei tanto o regime dele!” (sim, a Nona).
Resolveu estudar antropologia para tentar compreender porque nos grupos a que pertencia os indivíduos se ocupavam tanto em apontar os defeitos individuais de cada um em vez de trabalharem nos próprios.
Teve relativo sucesso em suas teses e trabalhos e ganhou da universidade uma viagem para estudar, durante um ano, as tribos indígenas do Norte do país.
Nessas andanças, chegou à tribo dos Makrarema. Os makraremas eram conhecidos por seu tipo físico esguio, o que os prejudicava nos conflitos com outras tribos. Não que fossem de muita luta, mas eram constantemente ridicularizados por não terem o físico imponente.
Imaginem como foi a recepção ao Vadão quando o viram. Os nativos apontavam e diziam ‘pororoco’, que significava “forte como um bisão”, ou “aquele que não dispensa a gemada”.
Surpreso por finalmente estar num ambiente no qual seu sobrepeso era motivo não de chacota, mas de admiração, Vadoberto decidiu ficar mais um pouco. Estudar mais a fundo aquela gente tão diferente.
Não demorou para que a proposta viesse. Os makrarema solicitaram o que, na visão deles, seria um ‘upgrade’ genético. E foi assim que Vadão tornou-se reprodutor oficial da tribo.
Estava feliz da vida e decidido a ficar ali para sempre. Não precisava fazer nada, sequer entendia o que estavam dizendo. Aos poucos percebia olhares diferentes, mas não estava ligando.
Acontece que a vida longe dos alimentos industrializados, do açúcar refinado (e principalmente dos hábitos da Nona), somado à prática sexual freqüente, conseguiu o êxito que anos de terapia, dieta dos pontos e outras tantas tentativas jamais haviam alcançado.
Vadão estava finalmente (e definitivamente) magro.
Os makraremas não gostaram e recearam que aquele fosse o destino dos vários filhos que se desenvolviam no ventre das mães.
Anos se passaram sem que ninguém tivesse notícias do Vadão.
Até que a Nona, preocupada que só ela, foi atrás do neto. Chegou até a região onde se tivera notícias dele por último e dali até o vale habitado pelos makraremas.
Ao ver tanta gente magra (algumas crianças um pouco mais altas, é verdade), a Nona não pensou duas vezes: abriu a bolsa e foi distribuindo a todos uns biscoitinhos de polvilho. Não demorou para que fosse bem aceita, principalmente depois do primeiro almoço de domingo que organizara, e lá ficou. Descobriu que a farinha produzida pelos nativos servia para fazer massas. A banha das capivaras servia de base para outros quitutes, entre doces e frituras.
E foi assim que a Nona se vingou da morte do Vadão, sumindo de vista um dia e deixando para trás a tribo cheia de colesterol.
Chegou na pré-adolescência já com peso de adulto.
Na juventude toda, foi ouvindo de todos (menos da avó) o quanto estava errada sua alimentação.
“Você vai comer isso?”
“Você vai comer tudo isso?”
“Você vai comer tudo isso de novo?”
“Esse daí, se pudesse se prendia à geladeira para não ter que sair do lugar nunca mais.”
“Você só vai comer isso?” (essa última da Nona).
E decidiu fazer regime ao sair do colegial, influenciado tanto pelo mundo da publicidade que estampavam corpos esbeltos, quanto pela própria vontade de ganhar mais confiança.
Foi quando descobriu que os observadores tinham olhos também para as eventuais falhas de seu cardápio.
“Você só vai comer isso?”
“Você não vai comer mais nada?”
“Ai, você anda tão neurótico com a comida...”
“Esse daí, agora é rato de academia, só quer saber de exercícios em vez de viver a vida.”
“E eu que me matei no forno o dia todo!” (novamente da Nona).
Mas o Vadão (pois, apesar deter só um metro e sessenta, tinha o tamanho de um gigante na medição lateral e só era chamado no aumentativo), não se incomodava ainda. Nem quando percebeu que não se respeita um ex-gordinho, pois enxugara mais de trinta quilos.
“Ai, não vai comer o bolo do meu aniversário? Que desfeita! Vai me dar azar...”
“Não vai à nossa pizzada de sexta-feira?”
“Não vai experimentar esse empadão de bacon com provolone?”
“Não vai ao nosso coquetel?”
“O que que eu fiz para merecer um parente assim?” (a Nona).
E obviamente que o jovem ia cedendo, aos poucos. Começou com uma fatia da torta de queijo da Nona (para seu total deleite). Depois, uma lingüicinha não fazia mal a ninguém, não é verdade? E, ai, que dia quente, um sorvete é só para refrescar, nem pode ser classificado como alimento, entra na categoria de reclimatizador de ambiente. O ambiente estomacal, claro.
E o Vadão foi enchendo de novo, recebendo nova dose de comentários absolutamente construtivos quanto aos seus hábitos.
“Ih, ele não tem a menor força de vontade...”
“É um largado mesmo, não liga para o próprio corpo.”
“E eu que apoiei tanto o regime dele!” (sim, a Nona).
Resolveu estudar antropologia para tentar compreender porque nos grupos a que pertencia os indivíduos se ocupavam tanto em apontar os defeitos individuais de cada um em vez de trabalharem nos próprios.
Teve relativo sucesso em suas teses e trabalhos e ganhou da universidade uma viagem para estudar, durante um ano, as tribos indígenas do Norte do país.
Nessas andanças, chegou à tribo dos Makrarema. Os makraremas eram conhecidos por seu tipo físico esguio, o que os prejudicava nos conflitos com outras tribos. Não que fossem de muita luta, mas eram constantemente ridicularizados por não terem o físico imponente.
Imaginem como foi a recepção ao Vadão quando o viram. Os nativos apontavam e diziam ‘pororoco’, que significava “forte como um bisão”, ou “aquele que não dispensa a gemada”.
Surpreso por finalmente estar num ambiente no qual seu sobrepeso era motivo não de chacota, mas de admiração, Vadoberto decidiu ficar mais um pouco. Estudar mais a fundo aquela gente tão diferente.
Não demorou para que a proposta viesse. Os makrarema solicitaram o que, na visão deles, seria um ‘upgrade’ genético. E foi assim que Vadão tornou-se reprodutor oficial da tribo.
Estava feliz da vida e decidido a ficar ali para sempre. Não precisava fazer nada, sequer entendia o que estavam dizendo. Aos poucos percebia olhares diferentes, mas não estava ligando.
Acontece que a vida longe dos alimentos industrializados, do açúcar refinado (e principalmente dos hábitos da Nona), somado à prática sexual freqüente, conseguiu o êxito que anos de terapia, dieta dos pontos e outras tantas tentativas jamais haviam alcançado.
Vadão estava finalmente (e definitivamente) magro.
Os makraremas não gostaram e recearam que aquele fosse o destino dos vários filhos que se desenvolviam no ventre das mães.
Anos se passaram sem que ninguém tivesse notícias do Vadão.
Até que a Nona, preocupada que só ela, foi atrás do neto. Chegou até a região onde se tivera notícias dele por último e dali até o vale habitado pelos makraremas.
Ao ver tanta gente magra (algumas crianças um pouco mais altas, é verdade), a Nona não pensou duas vezes: abriu a bolsa e foi distribuindo a todos uns biscoitinhos de polvilho. Não demorou para que fosse bem aceita, principalmente depois do primeiro almoço de domingo que organizara, e lá ficou. Descobriu que a farinha produzida pelos nativos servia para fazer massas. A banha das capivaras servia de base para outros quitutes, entre doces e frituras.
E foi assim que a Nona se vingou da morte do Vadão, sumindo de vista um dia e deixando para trás a tribo cheia de colesterol.
11 de nov. de 2008
Esquistossomose
- Conta pra eles aquela da mulher que no final descobre que estava sentada num formigueiro!
Karmem contava o fim das piadas antes do começo. Também lia revistas de trás para a frente e sempre iniciava a leitura dos livros pelo último capítulo.
- Como que eu posso fazer a piada agora, se você acaba de contar o final?
- Mas tem o resto ainda, é super engraçada, gente!
Karmem não gostava de textos lineares, com começo, meio e fim. Sempre apreciou mais os filmes cuja ordem cronológica não segue essa regra. E o mesmo raciocínio valia para as piadas.
- Vou te contar uma, então. Uma amiga chegou para a outra e disse “O que é que você tem?”. E ela respondeu “Estou com esquistossomose”. Aí, a primeira disse “Ah, eu não passei em nenhuma faculdade”.
Engasguei com o pedaço de banana que estava comendo e caí no chão de joelhos rindo. Com um largo sorriso, Karmem elogiava a própria brincadeira:
- É engraçada essa piada, né?
- Karmem... Haha... A piada... Hahahahaha... Não é assim... Hehehehehehehe
- Como não?
- É... Hahahahaha Assim... Hehehehehehe... Uma loira encontra uma amiga e diz “Há quanto tempo! Nossa, como você está moderna, careca... O que você tem feito?”.
- Ai, é essa mesma!
- E a amiga responde “Quimioterapia”. Só então a primeira loira responde “Jura? Na PUC ou na USP? Eu não consegui passar em nenhum vestibular...”.
- Haha é engraçada demais, né?
- Sim, mas você percebe que do jeito que você contou não faz o menor sentido?
- Por que não? Eu infringi alguma regra do Sindicato dos Contadores de Anedotas por acaso?
- Não que eu saiba.
- Então pronto. Essa foi a minha interpretação da piada.
- Mas como é que ‘quimioterapia’ vira ‘esquistossomose’, Karmem? E desde quando essa doença remete a algum curso de nível superior?
- Você sempre se acha o melhor contador de gracejos do mundo.
- Karmem, entenda, a piada tem que ser contada na ordem certa, senão não funciona.
- Sabe do que mais?
- O quê?
- Aposto que você riu mais da minha versão da piada do que da original.
- Eu ainda estou rindo!
- Então, ela é melhor que a primeira, não é?
E a verdade é que ainda rio com a versão ‘esquistossomose’.
Karmem contava o fim das piadas antes do começo. Também lia revistas de trás para a frente e sempre iniciava a leitura dos livros pelo último capítulo.
- Como que eu posso fazer a piada agora, se você acaba de contar o final?
- Mas tem o resto ainda, é super engraçada, gente!
Karmem não gostava de textos lineares, com começo, meio e fim. Sempre apreciou mais os filmes cuja ordem cronológica não segue essa regra. E o mesmo raciocínio valia para as piadas.
- Vou te contar uma, então. Uma amiga chegou para a outra e disse “O que é que você tem?”. E ela respondeu “Estou com esquistossomose”. Aí, a primeira disse “Ah, eu não passei em nenhuma faculdade”.
Engasguei com o pedaço de banana que estava comendo e caí no chão de joelhos rindo. Com um largo sorriso, Karmem elogiava a própria brincadeira:
- É engraçada essa piada, né?
- Karmem... Haha... A piada... Hahahahaha... Não é assim... Hehehehehehehe
- Como não?
- É... Hahahahaha Assim... Hehehehehehe... Uma loira encontra uma amiga e diz “Há quanto tempo! Nossa, como você está moderna, careca... O que você tem feito?”.
- Ai, é essa mesma!
- E a amiga responde “Quimioterapia”. Só então a primeira loira responde “Jura? Na PUC ou na USP? Eu não consegui passar em nenhum vestibular...”.
- Haha é engraçada demais, né?
- Sim, mas você percebe que do jeito que você contou não faz o menor sentido?
- Por que não? Eu infringi alguma regra do Sindicato dos Contadores de Anedotas por acaso?
- Não que eu saiba.
- Então pronto. Essa foi a minha interpretação da piada.
- Mas como é que ‘quimioterapia’ vira ‘esquistossomose’, Karmem? E desde quando essa doença remete a algum curso de nível superior?
- Você sempre se acha o melhor contador de gracejos do mundo.
- Karmem, entenda, a piada tem que ser contada na ordem certa, senão não funciona.
- Sabe do que mais?
- O quê?
- Aposto que você riu mais da minha versão da piada do que da original.
- Eu ainda estou rindo!
- Então, ela é melhor que a primeira, não é?
E a verdade é que ainda rio com a versão ‘esquistossomose’.
Assinar:
Postagens (Atom)

